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O mundo na
época
A ignorância sobre o corpo
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Obra de Pieter Brueghel, o Velho, trata dos mutilados
do seu tempo: a medicina recorria com freqüência à amputação
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É imenso o sofrimento físico da humanidade nos tempos
de Cabral. A ignorância sobre o interior do corpo humano é tal que,
além das purgas e sangrias, a operação mais comum é a amputação. Amputam-se
braços, mãos, pernas. A habilidade que mais se exige de um cirurgião
é a rapidez, pois numa amputação demorada o paciente morre ao esvair-se
em sangue. A técnica mais conhecida é aplicar ao coto uma substância
em ebulição ou, então, um ferro em brasa! E tudo sem anestesia, essa
espetacular redenção da dor que o homem só descobrirá quatro séculos
mais tarde.
No mundo de Cabral, não há microscópio, nem vacina
ou termômetro. Não se sabe quase nada sobre a existência de germes e
bactérias. A Europa ainda mantém viva na memória o horror da peste negra
que em meados do século XIV, estima-se, matou 25 milhões de pessoas.
Uma mortandade tão elevada que alterou até os padrões econômicos da
Europa medieval, dada a escassez de mão-de-obra. As doenças contagiosas,
que só começarão a ser desvendadas 50 anos depois pelo médico e poeta
italiano Girolamo Fracastoro (1483-1553), permanecem um completo mistério.
Os médicos não sabem nem como circula o sangue pelo
corpo humano. Muitos acham, inspirados no velho Cláudio Galeno, médico
grego que viveu no século II, que o sangue anda de um lado para outro
do coração. Nem fazem idéia de que circula à volta do corpo sempre numa
única direção, descoberta que só será feita dois séculos depois. Mas,
apesar de tudo, é no Renascimento que o espírito investigador e a avidez
pelo conhecimento farão com que a medicina comece enfim a romper com
seu atraso de séculos e derrubar a idéia de que a doença é coisa do
demônio.
Os médicos querem dissecar cadáveres, conhecer a
anatomia humana. O suíço Paracelso (1493-1541), professor da Universidade
da Basiléia, em protesto contra a crença segundo a qual o cadáver humano
é sagrado, queima em público os livros antigos de medicina, inclusive
os do grego Galeno. Quer que os médicos experimentem em vez de basear-se
em livros de séculos e séculos atrás. O flamengo André Vesálio (1514?-1564)
consegue dissecar cadáveres, faz minucioso desenho do interior do corpo
humano, o que o colocará na história como o pai da anatomia, mas seu
trabalho é repudiado por muitos. Inconformado, Vesálio o abandona, queima
todas suas obras por publicar e vira médico pessoal de um rei.
Em todos os campos da medicina, o conhecimento científico,
adquirido pela experiência, começa a se aprofundar. Exceto nas doenças
mentais, que ficarão presas à concepção demoníaca até o século XVII.
Imagina-se que existem apenas dois tipos de loucura: mania (loucura
furiosa) e melancolia (loucura triste). A Europa, através das terras
espanholas, está começando a importar os hospícios, surgidos na civilização
árabe, que irão se proliferar até chegar ao auge no século XIX, ‘‘o
século dos manicômios’’.
(*) André Petry, da equipe do Correio
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