logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O mundo na época

A ignorância sobre o corpo

Obra de Pieter Brueghel, o Velho, trata dos mutilados do seu tempo: a medicina recorria com freqüência à amputação

 

  É imenso o sofrimento físico da humanidade nos tempos de Cabral. A ignorância sobre o interior do corpo humano é tal que, além das purgas e sangrias, a operação mais comum é a amputação. Amputam-se braços, mãos, pernas. A habilidade que mais se exige de um cirurgião é a rapidez, pois numa amputação demorada o paciente morre ao esvair-se em sangue. A técnica mais conhecida é aplicar ao coto uma substância em ebulição ou, então, um ferro em brasa! E tudo sem anestesia, essa espetacular redenção da dor que o homem só descobrirá quatro séculos mais tarde.

  No mundo de Cabral, não há microscópio, nem vacina ou termômetro. Não se sabe quase nada sobre a existência de germes e bactérias. A Europa ainda mantém viva na memória o horror da peste negra que em meados do século XIV, estima-se, matou 25 milhões de pessoas. Uma mortandade tão elevada que alterou até os padrões econômicos da Europa medieval, dada a escassez de mão-de-obra. As doenças contagiosas, que só começarão a ser desvendadas 50 anos depois pelo médico e poeta italiano Girolamo Fracastoro (1483-1553), permanecem um completo mistério.

  Os médicos não sabem nem como circula o sangue pelo corpo humano. Muitos acham, inspirados no velho Cláudio Galeno, médico grego que viveu no século II, que o sangue anda de um lado para outro do coração. Nem fazem idéia de que circula à volta do corpo sempre numa única direção, descoberta que só será feita dois séculos depois. Mas, apesar de tudo, é no Renascimento que o espírito investigador e a avidez pelo conhecimento farão com que a medicina comece enfim a romper com seu atraso de séculos e derrubar a idéia de que a doença é coisa do demônio.

  Os médicos querem dissecar cadáveres, conhecer a anatomia humana. O suíço Paracelso (1493-1541), professor da Universidade da Basiléia, em protesto contra a crença segundo a qual o cadáver humano é sagrado, queima em público os livros antigos de medicina, inclusive os do grego Galeno. Quer que os médicos experimentem em vez de basear-se em livros de séculos e séculos atrás. O flamengo André Vesálio (1514?-1564) consegue dissecar cadáveres, faz minucioso desenho do interior do corpo humano, o que o colocará na história como o pai da anatomia, mas seu trabalho é repudiado por muitos. Inconformado, Vesálio o abandona, queima todas suas obras por publicar e vira médico pessoal de um rei.

  Em todos os campos da medicina, o conhecimento científico, adquirido pela experiência, começa a se aprofundar. Exceto nas doenças mentais, que ficarão presas à concepção demoníaca até o século XVII. Imagina-se que existem apenas dois tipos de loucura: mania (loucura furiosa) e melancolia (loucura triste). A Europa, através das terras espanholas, está começando a importar os hospícios, surgidos na civilização árabe, que irão se proliferar até chegar ao auge no século XIX, ‘‘o século dos manicômios’’.

(*) André Petry, da equipe do Correio






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