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BRASIL 500
ANOS: O DÉCIMO PRIMEIRO DIA DA VIAGEM
Altar de proa e popa
Cabral reza, todos rezam, no rumo de Cabo Verde. Há
procissões no convés e 17 religiosos a bordo. Qual o papel da Igreja
Católica no Renascimento
Quarta-feira, 18 de março de 1500. Diante de
uma imagem de Nossa Senhora da Anunciação, Pedro Álvares Cabral pede
alívio às dores de cabeça que lhe atormentam desde o dia anterior. Os
ventos, que já foram mais generosos, agora empurram as 13 embarcações
em direção ao arquipélago de Cabo Verde a uma velocidade de oito quilômetros
por hora. O sol aproxima-se do horizonte e depressa some no mar. É assim
nestas paragens próximas ao Equador: estão distantes os longos crepúsculos
europeus. Aos poucos, vão surgindo tochas em meio ao lusco-fusco no
convés da nau capitânia. Ouve-se quase sempre uma reza a bordo dessas
naus e caravelas. Toda noite tem procissão, indo do altar na proa ao
altar na popa, e de volta à proa.
Além de casa, quartel e hospital, o navio é também
templo. Nas procissões, alguns marinheiros caminham de joelhos. Os padres
jogam água benta sobre o mar. Tamanha religiosidade tem um motor: o
medo. No alto-mar, a fé nasce até nos corações menos afeitos à fé. A
família está longe, as doenças estão perto, não há garantia de retorno.
Mas os marinheiros, em geral, não rezam por convicção de fé. Fazem orações
de súplica: pedem mar tranqüilo, bons ventos, nada de doenças e naufrágios.
Os padres estimulam, tentam convencê-los de que é melhor conversar com
Deus que jogar cartas no convés.
Nesta frota, há 17 religiosos. Sob o comando de frei
Henrique de Coimbra, há oito capelães, sete frades franciscanos e um
vigário. Mas só frei Henrique dorme num camarote, e ao lado do quarto
de Cabral. Os demais dormem sob o convés. O grupo de religiosos representa
uma amostra fiel da Igreja Católica. Frei Henrique é um homem erudito.
ex-desembargador em Lisboa. (Depois desta viagem, será bispo em Ceuta,
responsável pela Inquisição e representante da Coroa junto ao papa.)
O frei Maffeo, italiano, toca órgão. Frei João da Vitória é do baixo
clero e ‘‘pertencia ao número daqueles idiotas em cuja boca imprime
o Senhor dos humildes o que há de responder na presença de tiranos’’,
como dirá, mais tarde, o cronista Fernando Soledade.
As caravelas portuguesas, como as espanholas, navegam
sobre a bênção papal. O papa Alexandre VI patrocinou o Tratado de Tordesilhas,
dividindo o espaço oceânico entre Portugal e Espanha. Em Roma, quase
todos acreditam que os monarcas ibéricos serão imbatíveis em eficácia
para fazer da Igreja a primeira multinacional globalizada. Sem esquecer,
claro, de salvar a alma dos infiéis.
Cabral é cavaleiro da Ordem de Cristo, que financiou
as primeiras navegações portuguesas ainda no tempo do infante dom Henrique.
Essa organização clerical nasceu dos escombros da Ordem dos Templários,
que teve seu auge na França do século XIII e, de tão poderosa, foi destruída
pelo rei Felipe IV. O símbolo da Ordem de Cristo é uma cruz vermelha,
ostentada nas velas destes 13 barcos que deslizam rumo ao Sul.
( * ) Paulo Silva Pinto, da equipe do Correio
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