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O mundo na
época
Papa devasso e Inquisição a caminho
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O Juízo Fiscal, afresco pintado por Michelangelo
na parede do altar da Capela Sistina: obscurantismo da Inquisição
e esplendor artístico no Renascimento
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Enquanto Cabral singra os mares, a Igreja de Roma
faz seu périplo para o inferno. Alexandre VI, um papa espanhol, avarento
e corrupto, é o símbolo da decadência da Igreja como autoridade espiritual
de quase toda a Europa da época. Chegou ao trono através de suborno.
Tem amantes e filhos bastardos. Manda assassinar inimigos. Mete-se na
política italiana com avidez de saqueador e tudo faz para arrancar vantagens
materiais para si e seus dois filhos prediletos, César e Lucrécia Borgia,
que mais tarde vão inspirar Maquiavel (1469-1527) em seu clássico O
Príncipe.
O mundo de Cabral gira em torno da religião. A Rússia
perde sua capital religiosa, Constantinopla (atual Istambul, na Turquia),
que foi tomada pelos turcos. Moscou passa a sentir-se como a ‘‘terceira
Roma’’, com a tarefa de defender sua ortodoxia cristã diante do avanço
dos turcos muçulmanos. Na exótica Índia, os exércitos árabes estão ocupando
o coração da terra hindu. Em Portugal e Espanha, potências européias,
expulsam-se ou convertem-se os judeus, e as viagens marítimas são, a
um só tempo, conquista comercial e expansionismo católico. Os marinheiros
das caravelas são cruzados (cuja missão é evangelizar) e mercadores
(cuja missão é o ‘‘justo lucro’’).
Nessa época, ainda não existe a noção de Europa como
uma unidade relativamente homogênea. É um continente fracionado, diverso,
convulso. A Alemanha tem 340 ducados e ímpetos imperialistas. A Itália
é um belicoso formigueiro de cidades-estado. Na religião, a Europa também
está dividida. Toda ela combate os muçulmanos, que os ibéricos chamarão
de mouros, mas está cingida no campo da sua fé cristã. Uma metade é
católica, conservadora, obediente ao papa. A outra é contestadora, reformista,
avessa a Roma.
Portugal e Espanha, que acabam de partilhar o mundo
oceânico através do Tratado de Tordesilhas sob o patrocínio do papa,
são católicos. A Alemanha, que já dá sinais de revolta contra Roma,
é um aglomerado de reformistas. E a pregação de um frade agostinho,
filho pobre de um mineiro da Saxônia, vai deflagrar a guerra aberta
entre essas duas Europas. É Martin Lutero (1483-1546), que numa visita
a Roma se escandaliza com a depravação e a venda de indulgências. De
volta a sua cidade, prega suas 95 teses rebeldes na porta da capela
do Castelo de Wittenberg. A Igreja nunca mais será a mesma.
Da guerra aberta, surgem duas Europas. Uma, em especial
a Itália, entrará num período inovador e criativo, que ganhará o nome
de Renascimento. A outra, incluindo Portugal e Espanha, ficará exilada
do mundo sob o terror da Inquisição. De meados do século XVI ao final
do século seguinte, 1 379 pessoas serão queimadas nas fogueiras da Inquisição
portuguesa. Muitas serão mulheres, as ‘‘bruxas que copulavam com o demônio’’,
segundo o Malleus Maleficarum, a bíblia inquisitorial publicada em 1494,
o mais ensandecido manifesto de ódio às mulheres de que se tem notícia.
Portugal viverá quase dois séculos sob o reino da
denúncia. A denúncia, antes um ato vil e covarde, passa a ser um dever
religioso, nobre e virtuoso. Os católicos viram polícia dos católicos.
Serão condenados ao fogo os suspeitos de praticar o judaísmo e a feitiçaria,
e perverter os costumes. A censura prévia será implacável, com as livrarias
sendo fiscalizadas e os navios, que trazem obras do estrangeiro, serão
vistoriados. (Até a segunda edição de Os Lusíadas, de Camões, sofrerá
cortes significativos). Assim como a Igreja, o pequeno Portugal, irremediavelmente
mergulhado no obscurantismo religioso, conhecerá a decadência e também
nunca mais será o mesmo.
(*) André Petry, da equipe do Correio
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