logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O mundo na época

Papa devasso e Inquisição a caminho

O Juízo Fiscal, afresco pintado por Michelangelo na parede do altar da Capela Sistina: obscurantismo da Inquisição e esplendor artístico no Renascimento

 

    Enquanto Cabral singra os mares, a Igreja de Roma faz seu périplo para o inferno. Alexandre VI, um papa espanhol, avarento e corrupto, é o símbolo da decadência da Igreja como autoridade espiritual de quase toda a Europa da época. Chegou ao trono através de suborno. Tem amantes e filhos bastardos. Manda assassinar inimigos. Mete-se na política italiana com avidez de saqueador e tudo faz para arrancar vantagens materiais para si e seus dois filhos prediletos, César e Lucrécia Borgia, que mais tarde vão inspirar Maquiavel (1469-1527) em seu clássico O Príncipe.

  O mundo de Cabral gira em torno da religião. A Rússia perde sua capital religiosa, Constantinopla (atual Istambul, na Turquia), que foi tomada pelos turcos. Moscou passa a sentir-se como a ‘‘terceira Roma’’, com a tarefa de defender sua ortodoxia cristã diante do avanço dos turcos muçulmanos. Na exótica Índia, os exércitos árabes estão ocupando o coração da terra hindu. Em Portugal e Espanha, potências européias, expulsam-se ou convertem-se os judeus, e as viagens marítimas são, a um só tempo, conquista comercial e expansionismo católico. Os marinheiros das caravelas são cruzados (cuja missão é evangelizar) e mercadores (cuja missão é o ‘‘justo lucro’’).

  Nessa época, ainda não existe a noção de Europa como uma unidade relativamente homogênea. É um continente fracionado, diverso, convulso. A Alemanha tem 340 ducados e ímpetos imperialistas. A Itália é um belicoso formigueiro de cidades-estado. Na religião, a Europa também está dividida. Toda ela combate os muçulmanos, que os ibéricos chamarão de mouros, mas está cingida no campo da sua fé cristã. Uma metade é católica, conservadora, obediente ao papa. A outra é contestadora, reformista, avessa a Roma.

  Portugal e Espanha, que acabam de partilhar o mundo oceânico através do Tratado de Tordesilhas sob o patrocínio do papa, são católicos. A Alemanha, que já dá sinais de revolta contra Roma, é um aglomerado de reformistas. E a pregação de um frade agostinho, filho pobre de um mineiro da Saxônia, vai deflagrar a guerra aberta entre essas duas Europas. É Martin Lutero (1483-1546), que numa visita a Roma se escandaliza com a depravação e a venda de indulgências. De volta a sua cidade, prega suas 95 teses rebeldes na porta da capela do Castelo de Wittenberg. A Igreja nunca mais será a mesma.

  Da guerra aberta, surgem duas Europas. Uma, em especial a Itália, entrará num período inovador e criativo, que ganhará o nome de Renascimento. A outra, incluindo Portugal e Espanha, ficará exilada do mundo sob o terror da Inquisição. De meados do século XVI ao final do século seguinte, 1 379 pessoas serão queimadas nas fogueiras da Inquisição portuguesa. Muitas serão mulheres, as ‘‘bruxas que copulavam com o demônio’’, segundo o Malleus Maleficarum, a bíblia inquisitorial publicada em 1494, o mais ensandecido manifesto de ódio às mulheres de que se tem notícia.

  Portugal viverá quase dois séculos sob o reino da denúncia. A denúncia, antes um ato vil e covarde, passa a ser um dever religioso, nobre e virtuoso. Os católicos viram polícia dos católicos. Serão condenados ao fogo os suspeitos de praticar o judaísmo e a feitiçaria, e perverter os costumes. A censura prévia será implacável, com as livrarias sendo fiscalizadas e os navios, que trazem obras do estrangeiro, serão vistoriados. (Até a segunda edição de Os Lusíadas, de Camões, sofrerá cortes significativos). Assim como a Igreja, o pequeno Portugal, irremediavelmente mergulhado no obscurantismo religioso, conhecerá a decadência e também nunca mais será o mesmo.

(*) André Petry, da equipe do Correio






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