|
O MUNDO NA
ÉPOCA
Da pimenta ao império
— E tudo isso começou com um grão de pimenta! (...) Pimenta,
o cobiçado Ouro Negro de Malabar, foi o artigo original de minha famigerada
família (...), que arrogava-se a honra de descender, ainda que em bastardia,
de ninguém menos que o grande Vasco da Gama...’’ O Último Suspiro do
Mouro, Salman Rushdie
|
|
Português num palanquim: adulado por escravos,
um deles o boi sombreiro.
Possessões Portuguesas na Ásia
|
Os Gamas indianos são comerciantes
que vivem na ilha Cabral, no porto de Cochim, costa de Malabar, sul
da Índia, nos anos 40 e 50 deste século. São católicos
e dão nomes portugueses aos filhos Aurora é a mãe,
Moraes da Gama é o filho, Camões, Aires, Francisco e Epifânia
são os avós e bisavós (até o amante marinheiro
de Aires, o tio homossexual, ganha o apelido brincalhão de príncipe
Henrique, o navegador).
São personagens literários,
figuras saídas da imaginação de Salman Rushdie,
o escritor indiano ameaçado de morte pelos aiatolás do
Irã. Mas mostram como a conquista portuguesa da Índia
no século XVI deixou marcas no país.
Cochim, a cidade dos Gamas fictícios
de Rushdie, é um dos palcos principais dessa história.
Pedro Álvares Cabral foi comprar pimenta lá em 1500, depois
de achar o Brasil, cruzar o Oceano Índico e acabar escorraçado
de Calecute o porto aonde Vasco da Gama chegara pela primeira
vez em 1498.
Foi também em Cochim que o próprio
Vasco da Gama, o almirante do Mar da Índia, morreu em 1524, na
terceira viagem ao subcontinente que começara a conquistar. Seus
restos ficaram enterrados numa igreja católica da cidade por
14 anos, até serem trasladados a Lisboa.
Nesse momento, um quarto de século depois da primeira
viagem dos portugueses à Índia, Portugal dominava os mares
do sul da Ásia e o comércio das especiarias com a Europa.
Um pequeno país do extremo oeste do continente tornara-se o primeiro
império colonial europeu moderno. Como isso aconteceu?
O poder marítimo é o começo
de tudo. Os navios portugueses intrometem-se a partir de 1500 nas rotas
comerciais do Índico e fazem grande estrago. Navegam contra o
vento, manobram melhor que os barcos locais, dispõem de canhões
mais poderosos e suas tripulações são mais bem
treinadas para a guerra naval.
D. Francisco de Almeida, o primeiro vice-rei
enviado por D. Manuel à Índia, em 1505, escreveria ao
soberano português: ...enquanto no mar fordes poderoso,
tereis a Índia por vossa; e se isto não tiverdes no mar,
pouco vos prestará fortaleza na terra.
Ele sabia do que falava. Com uma esquadra
de 22 caravelas, derrotou uma frota egípcia enviada para proteger
o porto de Diu, atacado pelos portugueses em 1509. Outro porto indiano,
Goa, foi tomado em 1510 por Afonso de Albuquerque, o sogro de Pedro
Álvares Cabral que sucedeu a Almeida como vice-rei. Goa tornou-se
a capital do império asiático português. Mais do
que uma simples feitoria partilhada com os reis nativos, foi declarada
cidade regalenga, possessão da Coroa com os mesmos direitos de
Lisboa.
Goa, Diu e Damão, um terceiro
porto indiano, vieram a ser curiosos anacronismos históricos.
Permaneceram portugueses longo tempo depois de findo o império.
Só neste século, em 1961, foram retomados, à força,
pela Índia.
O subcontinente indiano foi só a
primeira etapa da conquista. Mais a oeste, além da península
malaia, ficam as ilhas Molucas, paraísos da noz moscada e do
cravo, como a Índia é o país da pimenta. Albuquerque
tomou em 1511 o enorme entreposto comercial de Malaca, um ponto estratégico
que dominava o estreito entre a península e a grande ilha de
Sumatra.
Entra em cena a manipulação
política. Explorando as rivalidades dos pequenos sultões
das ilhas, os portugueses ganharam o domínio mercantil de Ternate
e Banda, duas das Molucas mais ricas. E foram em frente; chegam a Cantão
e Macau, na costa da China, em 1513, e a Nagasaki, no Japão,
em 1542.
Em cada novo porto, os portugueses negociavam
vantagens comerciais, cavavam alianças políticas e catequizavam
os nativos. Usavam a força dos canhões para vencer as
resistências. Mas não podiam ir além disso.
Precisavam se entender com os reis nativos
para instalar suas feitorias. Não governavam o dia-a-dia das
populações locais (Goa é a exceção).
Não tinham meios nem gente para aventurar-se na ocupação
de grandes territórios.
A expansão marítima portuguesa
dos séculos XV e XVI criou um império impossível.
Os estabelecimentos lusitanos formavam uma rede de feitorias,, portos
marítimos e fortalezas militares que cobria de Ormuz, na boca
do Golfo Pérsico, até o Japão. Mas eram postos
avançados e isolados, sem enchimento
entre os nós. Era uma rede esgarçada quase ao ponto do
rompimento.
Os historiadores concordam que império
português não se instalou num vácuo. Mercados e
rotas comerciais movimentados e sofisticados já existiam no Oceano
Índico e no Sudeste asiático. A China e a Índia,
naquele momento, eram, na verdade, mais ricos do que a Europa. Os portugueses
entremearam-se às redes comerciais que encontraram e lhes acrescentaram
a ligação marítima com a Europa. Só dominaram
uma parcela do volume total do comércio regional.
Ainda assim, Portugal teve lucros altíssimos
com a Carreira das Índias, como foi chamada a rota descoberta
por Vasco da Gama. Mas foi ao limite de suas forças para mantê-la.
A festa durou um século e meio, se tanto. No final do século
XVI, quando as agressivas companhias comerciais holandesas avançaram
cobiçosamente sobre suas rotas marítimas, Portugal estava
submetido à Espanha. Não tinha resistência para
se defender. Uma a uma, as cidades-chave do comércio oriental
foram caindo em poder dos holandeses ou sendo retomadas pelos senhores
locais.
Ternate, a ilha dos cravos, passou para
as mãos holandesas em 1610; o Japão expulsou os portugueses
em 1638; em 1641, caiu Malaca; finalmente, em 1665, os holandeses tomaram
Cochim, onde começou nossa história de hoje. Restaram
a Portugal farrapos da antiga glória: os enclaves de Goa, Damão
e Diu. E a colônia de Macau, que só veio a ser pacificamente
devolvida à China em 1999. Quinhentos e um anos tinham se passado
desde a grande viagem de Vasco da Gama. Extinguia-se, sem choro nem
vela, o império português do Oriente.
( * ) Armando Mendes, da equipe do Correio
|