logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O DÉCIMO TERCEIRO DIA DA VIAGEM

As lides da multidão no mar

Nesta frota, estão embarcados nada menos que 2,5% da população de Lisboa: há gentes do mar, gentes das armas e crianças de 9 a 15 anos. Como era a demografia da época

Detalhes de duas obras de André Reinoso (1610-1641) sobre a vida no mar: entre as armas e o Oceano, poucos entendem do ramo

Sexta-feira, 20 de março de 1500. O piloto Pero Escolar aposta que daqui a três dias, os marinheiros verão o arquipélago de Cabo Verde. Há que se dar crédito à previsão de Escolar. É dos mais experientes tripulantes desta frota, ostenta um raro currículo de sucessos no mar. Há 12 anos, em 1488, participou da frota de Bartolomeu Dias na expedição que venceu o Cabo das Tormentas, no sul da África. Também estava no timão do navio de Vasco da Gama quando os portugueses descobriram o caminho marítimo para as Índias. Na hierarquia das esquadras, o piloto é figura-chave. É o motorista do barco, fica no timão. Daí ser chamado de timoneiro.

No mar, há dois tipos de profissionais: a ‘‘gente do mar’’ e a ‘‘gente das armas’’. O primeiro grupo cuida de todas as tarefas náuticas; o segundo, da parte bélica. Entre a ‘‘gente do mar’’ estão comandantes, pilotos, grumetes, pajens, remendadores de velas. O grupo das armas é o quartel flutuante do qual falamos outro dia. Nele servem soldados e artilheiros, ou bombardeiros. Trabalham sob as ordens do artilheiro-mestre e do sargento. Cuidam das bocas de fogo, das bombardas e dos falcões, a artilharia guardada no convés. A turma de guerreiros é imensa. Responde por quase a metade da tripulação: são 700 soldados, distribuídos pelos 13 barcos e a maioria com menos de 20 anos de idade. Não recebem treinamento e sequer têm formação militar. Antes de embarcar, eram artesãos, sapateiros e alfaiates no comércio lisboeta. Não estão felizes em alto-mar, são recrutados a força e ganham uma mixaria de cinco cruzados anuais. A ‘‘gente do mar’’ também não é das mais alegres a bordo. O trabalho infantil é corriqueiro. Nesta esquadra, 10% da tripulação é de crianças com idade entre 9 e 15 anos. São os grumetes e os pajens, personagens freqüentes em todos os barcos que deixam Lisboa. Chegam alistados pelos próprios pais interessados em receber o pequeno soldo pago aos meninos. Os pajens servem aos religiosos e oficiais. Os grumetes fazem de tudo. Lavam o convés, os banheiros e, por vezes, trabalham como remendadores de velas. É um ofício ininterrupto: as velas vivem rasgando por causa do atrito no intrincado sistema de cordames. O comandante é a autoridade máxima no barco. Em tese, é o responsável pela navegação. Mas como muitos, a exemplo de Cabral, pouco entendem de mar, a singradura fica por conta de seus subordinados. O imediato trata da proa; o contramestre, da popa; o guarda, do convés. Com apitos sincronizados, organizam o trabalho dos 60 marinheiros da nau capitânia. Nos outros barcos, o número de marinheiros é menor, mas as funções são as mesmas.

O serviço pesado não é feito apenas pelos marinheiros e grumetes. Há também os calafates, que vedam fendas e buracos no casco do barco; e os tanoeiros, que cuidam dos tonéis, barris e pipas, guardados no porão para que não vazem. Completam o grupo da ‘‘gente do mar’’ dezenas de artesãos e carpinteiros. Como se vê, esta esquadra é uma multidão de gente e ofícios. Estão amontoadas nestes 13 barcos 1500 pessoas, cerca de 2,5% da população de Lisboa. A superlotação é arriscada. Uma das principais razões dos acidentes em alto-mar é justamente o peso excessivo dos navios. Há uma média de 20% de tripulação excedente em cada navio que singra o Atlântico a partir de Portugal. A maioria dos tripulantes dorme vendo a lua no gelado convés. Todos sonham com o regresso.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio






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