logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

Poucos colonizadores, muitos colonizados

‘‘...tem Vossa Alteza muita gente, a qual por andar espargida parecemos muito poucos, e anda tão solta que uns vão para Malaca, outros para Pacém, outros Bengala, Pegu, outros Coromandel e por toda a enseada de Bengala para muitos portos que nela há, outros para Banda, Timor (as ilhas do cravo, noz moscada e sândalo), outros para Ormuz, Chaul, Cambaia cada um a buscar sua vida como melhor podem.’’ Carta de António da Fonseca, escrivão da Fazenda da Índia, ao rei dom João III

  No auge do império português do Oriente, no século XVI, não mais de 10 mil soldados, comerciantes e funcionários reais vindos da metrópole guarneciam os fortes, portos, feitorias e entrepostos comerciais espalhados desde o Golfo Pérsico até o mar do Japão.
  A população asiática total na época é estimada em cerca de 200 milhões de pessoas. Ainda que só uma parcela desse total vivesse nos litorais do sul do continente, a comparação mostra a enorme disparidade demográfica entre orientais e europeus nos territórios asiáticos onde os portugueses se instalaram. Havia pouquíssimos colonizadores para muitíssimos colonizados.

  Ainda assim, esse era um gigantesco esforço para um país pequeno como Portugal. Os portugueses eram cerca de um milhão no começo do século XVI. Dez mil deles transportados para o Oriente representam 1% da população total, um número considerável que ainda deixa de fora os portugueses da África e do Brasil.

  Só a tripulação dos 13 barcos de Pedro Álvares Cabral — cerca de 1.500 homens — equivalia a 2,5% da população de Lisboa na época. Outras esquadras mais numerosas foram mandadas ao mar; o primeiro vice-rei da Índia, dom Francisco de Almeida, por exemplo, zarpou em 1505 com 22 caravelas.

  Portugal não dava conta de equipar suas esquadras. Precisava recrutar marinheiros, artilheiros e soldados estrangeiros para completar as tripulações. É por isso que, se há um traço constante na vasta correspondência trocada por vice-reis, funcionários e mercadores das Índias com a Corte em Lisboa, é a reclamação sobre a falta de gente suficiente para fazer tudo o que precisa ser feito nas colônias.

  Muita gente deixa Portugal, mas ainda assim falta gente. Para piorar, multiplicam-se as rotas de comércio exploradas por mercadores particulares a partir de Goa, o centro do poder português no Oriente. Os funcionários reais se desesperam, como o escrivão António da Fonseca na carta citada acima, de 1523.

  Qual era a população do mundo no século XV e como se dividia? Só há números minimamente confiáveis, sobre os quais é possível especular com alguma base, para a Europa e a China. É possível dizer que a Ásia já era a região mais populosa, com os 200 milhões de habitantes que vimos acima. A China, sozinha, abrigaria de 55 a 60 milhões.

  A Europa, no mesmo momento, teria 60 milhões de habitantes. Para os demais continentes, as especulações dos historiadores variam enormemente. Nas terras do Novo Mundo, que viriam a ser chamadas de Américas, já houve quem calculasse que não havia mais de 15 milhões de habitantes no momento em que os europeus chegaram. Outros cálculos, mais aceitos, estimam uma população bem maior: até 80 milhões, em alguns casos. Certo, apenas, o fato do extermínio em massa de americanos nativos, a golpes de espada ou de doença.

  O maior estado do Novo Mundo, o asteca, teria de 20 a 25 milhões de habitantes. Viviam nas terras que hoje formam o México e a América Central. A varíola, o tifo e outras pestes os dizimaram. Em 1605, menos de um século depois da conquista espanhola, não passavam de um milhão.

  Nesse quadro, quantos eram os europeus envolvidos com as viagens de exploração do mundo? A população somada dos países e cidades navegadores — Portugal, Castela, Gênova, Veneza e alguns outros povos litorâneos do Atlântico e do Mediterrâneo — chegaria no máximo a 8 milhões de habitantes em meados do século XV.

  Desses, é provável que não mais de 100 mil trabalhassem em atividades ligadas à expansão marítima européia, responde o historiador francês Pierre Chaunu. Repete-se, portanto, a desproporção verificada na corrida portuguesa à Índia. Como uma população tão pequena levou à frente um empreendimento que mudou tão radicalmente a face do mundo? É assunto para outro dia.

( * ) Armando Mendes, da equipe do Correio






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