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O MUNDO NA
ÉPOCA
Poucos colonizadores, muitos colonizados
‘‘...tem Vossa Alteza muita gente, a qual por andar
espargida parecemos muito poucos, e anda tão solta que uns vão para
Malaca, outros para Pacém, outros Bengala, Pegu, outros Coromandel e
por toda a enseada de Bengala para muitos portos que nela há, outros
para Banda, Timor (as ilhas do cravo, noz moscada e sândalo), outros
para Ormuz, Chaul, Cambaia cada um a buscar sua vida como melhor podem.’’
Carta de António da Fonseca, escrivão da Fazenda da Índia, ao rei dom
João III
No auge do império português
do Oriente, no século XVI, não mais de 10 mil soldados,
comerciantes e funcionários reais vindos da metrópole
guarneciam os fortes, portos, feitorias e entrepostos comerciais espalhados
desde o Golfo Pérsico até o mar do Japão.
A população asiática total na época
é estimada em cerca de 200 milhões de pessoas. Ainda que
só uma parcela desse total vivesse nos litorais do sul do continente,
a comparação mostra a enorme disparidade demográfica
entre orientais e europeus nos territórios asiáticos onde
os portugueses se instalaram. Havia pouquíssimos colonizadores
para muitíssimos colonizados.
Ainda assim, esse era um gigantesco esforço
para um país pequeno como Portugal. Os portugueses eram cerca
de um milhão no começo do século XVI. Dez mil deles
transportados para o Oriente representam 1% da população
total, um número considerável que ainda deixa de fora
os portugueses da África e do Brasil.
Só a tripulação dos
13 barcos de Pedro Álvares Cabral cerca de 1.500 homens
equivalia a 2,5% da população de Lisboa na época.
Outras esquadras mais numerosas foram mandadas ao mar; o primeiro vice-rei
da Índia, dom Francisco de Almeida, por exemplo, zarpou em 1505
com 22 caravelas.
Portugal não dava conta de equipar
suas esquadras. Precisava recrutar marinheiros, artilheiros e soldados
estrangeiros para completar as tripulações. É por
isso que, se há um traço constante na vasta correspondência
trocada por vice-reis, funcionários e mercadores das Índias
com a Corte em Lisboa, é a reclamação sobre a falta
de gente suficiente para fazer tudo o que precisa ser feito nas colônias.
Muita gente deixa Portugal, mas ainda assim
falta gente. Para piorar, multiplicam-se as rotas de comércio
exploradas por mercadores particulares a partir de Goa, o centro do
poder português no Oriente. Os funcionários reais se desesperam,
como o escrivão António da Fonseca na carta citada acima,
de 1523.
Qual era a população do mundo
no século XV e como se dividia? Só há números
minimamente confiáveis, sobre os quais é possível
especular com alguma base, para a Europa e a China. É possível
dizer que a Ásia já era a região mais populosa,
com os 200 milhões de habitantes que vimos acima. A China, sozinha,
abrigaria de 55 a 60 milhões.
A Europa, no mesmo momento, teria 60 milhões
de habitantes. Para os demais continentes, as especulações
dos historiadores variam enormemente. Nas terras do Novo Mundo, que
viriam a ser chamadas de Américas, já houve quem calculasse
que não havia mais de 15 milhões de habitantes no momento
em que os europeus chegaram. Outros cálculos, mais aceitos, estimam
uma população bem maior: até 80 milhões,
em alguns casos. Certo, apenas, o fato do extermínio em massa
de americanos nativos, a golpes de espada ou de doença.
O maior estado do Novo Mundo, o asteca,
teria de 20 a 25 milhões de habitantes. Viviam nas terras que
hoje formam o México e a América Central. A varíola,
o tifo e outras pestes os dizimaram. Em 1605, menos de um século
depois da conquista espanhola, não passavam de um milhão.
Nesse quadro, quantos eram os europeus envolvidos
com as viagens de exploração do mundo? A população
somada dos países e cidades navegadores Portugal, Castela,
Gênova, Veneza e alguns outros povos litorâneos do Atlântico
e do Mediterrâneo chegaria no máximo a 8 milhões
de habitantes em meados do século XV.
Desses, é provável que não
mais de 100 mil trabalhassem em atividades ligadas à expansão
marítima européia, responde o historiador francês
Pierre Chaunu. Repete-se, portanto, a desproporção verificada
na corrida portuguesa à Índia. Como uma população
tão pequena levou à frente um empreendimento que mudou
tão radicalmente a face do mundo? É assunto para outro
dia.
( * ) Armando Mendes, da equipe do Correio
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