|
BRASIL 500
ANOS: O DÉCIMO QUARTO DIA DA VIAGEM
O salário do risco
Os navegadores ganham salários para se arriscar no mar,
mas cobiçam mesmo o lucro da pimenta e das mercadorias orientais que
podem levar de volta a Lisboa para vender
|
| Lisboa e a Ribeira
das Naus (estaleiro onde se construíam os navios portugueses), autor
desconhecido, século XVII
|
Sábado, 21 de março de 1500. A frota segue no rumo sudoeste,
a caminho do arquipélago de Cabo Verde. A bordo, o trabalho é duro e
o risco é grande. Embarcar num navio português da Carreira das Índias
era uma espécie de roleta russa. Em alguns momentos da exploração marítima
do Oriente, um terço dos marinheiros, soldados e comerciantes que deixavam
Lisboa morriam no caminho.
Valia a pena o risco? Pelo menos para alguns, valia.
Uma viagem bem sucedida podia render belos ganhos. Os aventureiros que
desafiavam os perigos do mar eram pagos de duas maneiras: ganhavam um
salário fixo, o soldo, e podiam trazer de volta mercadorias compradas
com seus próprios recursos, que venderiam em Portugal livres de impostos.
É o caso da frota que agora se dirige às Índias com
escala no Brasil. A perspectiva de ganho mais substancial dos comandantes
e oficiais superiores está na venda dessas mercadorias. A quantidade
que cada um poderia trazer era determinada de acordo com a hierarquia.
Gaspar Correia, autor das Lendas da Índia, registrou a folha de pagamento
da esquadra de Pedro Álvares Cabral.
O capitão-mor, por exemplo, tem direito a embarcar
para Portugal 500 quintais de pimenta — equivalentes a 3 toneladas da
especiarias — e 10 caixas de mercadorias diversas (conhecidas como caixas
de liberdades ou caixas forras), além de um salário fixo de 10 mil cruzados
pela viagem. Um cruzado equivalia a 3,5 gramas de ouro, ou aproximadamente
55 reais de hoje; mas qualquer comparação significativa com salários
atuais teria de levar em conta os níveis de preços de então.
A Coroa prometia comprar a pimenta na chegada a Lisboa,
com um lucro, para Cabral, de seis vezes o investimento feito. O conteúdo
das caixas de liberdades, ele venderia por sua conta e risco.
Os demais 12 capitães das naus e caravelas podiam
trazer 50 quintais de pimenta e seis caixas de liberdades. Seu salário
fixo era de mil cruzados por cada cem tonéis de capacidade do navio
que comandavam, o que daria em torno de 1,8 mil cruzados para a maior
parte deles.
Mais abaixo na hierarquia, mestres e pilotos tinham
direito a 30 quintais de pimenta, quatro caixas e soldo de 500 cruzados.
Esses eram os postos mais bem remunerados das frotas portuguesas.
Simples marinheiros e bombardeiros ganhavam apenas
dez cruzados por mês, uma caixa e dez quintais de pimenta, enquanto
os soldados tinham de se contentar com cinco cruzados mensais e três
quintais de pimenta. Finalmente, nos escalões mais baixos da sociedade
embarcada, grumetes ganhavam a metade do que se pagava ao marinheiro,
e os pajens, um terço do que ganhava um grumete.
Uma parcela dos ordenados era adiantada no porto
para o sustento das famílias durante a viagem. Casados recebiam um ano
de salário adiantado, solteiros ganhavam seis meses. Parte disso, sem
dúvida, começava a ser gasto no porto mesmo.
Os arquivos portugueses mostram como era diversa a
sorte de comandantes e comandados na aventura dos descobrimentos. Cartas
e mais cartas de viúvas ao rei pedem o pagamento de soldos atrasados
ou a concessão de pensões que aliviem a miséria em que as deixaram seus
maridos — marinheiros humildes mortos em naufrágios depois de vinte,
trinta ou quarenta anos de serviço no mar.
O risco era igual para todos. A recompensa, não.
Os nobres que chefiavam as esquadras, como Pedro Álvares Cabral, podiam
contar com a riqueza em vida e a glória póstuma. Para a arraia miúda
e anônima dos exploradores dos mares, não sobrava quase nada.
(*) Armando Mendes, da equipe do Correio
|