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O MUNDO NA
ÉPOCA
Pouco dinheiro e muito trabalho: entra
em cena o operário
‘‘Um dá o dinheiro,
o outro faz o trabalho’’
magistrado de cidade da Boêmia, definindo, em 1549, o novo regime de
emprego dos mineiros da região
Lyon, na França, é, na primeira metade do século
XVI, um centro importante da florescente indústria da impressão. Cerca
de cem prelos (máquinas de imprimir) funcionam na cidade. São propriedade
de mestres impressores — artesãos independentes que prestam serviços
para os editores. Os mestres empregam jornaleiros (trabalhadores assalariados)
e aprendizes (jovens que querem aprender o ofício e trabalham em troca
de casa e comida). Ao todo, são cerca de mil pessoas labutando na indústria
gráfica de Lyon.
Tudo corria na santa rotina até que os jornaleiros
começam a reclamar contra a exploração a que são submetidos pelos mestres.
Não suportam a desumana jornada de trabalho de 16 horas diárias — das
duas da manhã às dez da noite, com quatro horas de intervalo para as
refeições!
Os trabalhadores assalariados abandonam a velha corporação
dos tipógrafos, que, desde a Idade Média, reunia mestres e jornaleiros.
Fundam sua própria associação, reivindicam salários melhores, organizam
protestos, distribuem panfletos, fazem sua primeira greve, enfim, em
1539.
Histórias como essa se repetem em diversas cidades
européias por todo o século XVI. São sinal da transformação profunda
que está ocorrendo na Europa no momento em que Pedro Álvares Cabral
atravessa o Atlântico na direção do Brasil: a velha organização medieval
do trabalho, familiar e corporativa, dá lugar à nova ordem capitalista.
Na Idade Média, o camponês servil, vassalo do senhor
feudal, começou a emancipar-se. Tornou-se o artesão urbano, dono do
seu nariz e livre para vender seus produtos a quem pagasse melhor. O
segredo dessa autonomia: o artesão medieval concentrava todo o processo
de produção na sua pessoa.
Agora, no começo do século XVI, tudo está mudado.
A economia foi se tornando cada vez mais complexa e as funções se separaram.
O mestre conserva o orgulho e o prestígio social do artesão medieval,
expresso nas ricas corporações de ofícios da época. Mas não é mais senhor
da produção. Precisa recorrer a um mercador que lhe financia a matéria-prima
e compra seus produtos.
As corporações, dominadas pelos mestres, continuam
a regular o exercício das profissões. Como toda organização monopolista,
querem fechar o mercado para benefício exclusivo de seus integrantes.
Fazem com que seja cada vez mais difícil conseguir o grau de mestre.
Os jornaleiros, com sua ascensão bloqueada, se transformam em trabalhadores
assalariados. São donos apenas da sua força de trabalho. Se um mestre
ganha o equivalente a cem, um jornaleiro não ganhará mais do que 75
(mais abaixo na escala, serventes braçais ganhariam 50 e os biscateiros
eventuais não passariam de 25).
O conflito logo se instala. Voltando agora aos tipógrafos
de Lyon; eles protestam contra a carga de trabalho cavalar, como vimos.
Mas sofrem também afrontas mais sutis. Segundo o regulamento medieval,
aprendizes e jornaleiros comiam à mesa do mestre (e às custas dele).
Mas os mestres argumentam que a vida está mais cara, que os editores
pagam uma miséria por folha impressa, e decidem que não podem continuar
alimentando jovens tão gulosos. Impõem um regime moderno de trabalho,
no qual os jornaleiros recebem um salário fixo e devem tirar dele seu
sustento, incluindo as refeições na taberna da esquina. Talvez nenhum
outro traço ilustre com a mesma força a mudança em curso: acabou a grande
família corporativa da Idade Média, acabaram as ligações meio profissionais,
meio paternalistas, entre mestres e trabalhadores.
Instala-se a relação de trabalho impessoal, mediada
apenas pelo salário, com toda a insegurança que ela acarreta (os jornaleiros
das tipografias de Lyon, humilhados pela expulsão da mesa dos mestres,
retrucaram com a ironia; batizaram sua nova associação de griffarins,
que quer dizer glutões).
A mudança não é uniforme. Os trabalhadores das minas,
em particular, são quase servos em boa parte da Europa. Mas nas cidades
mais avançadas, em meados do século XVI, o mercado de trabalho já é
muito parecido com o que veremos nos séculos vindouros. Parecido em
vários sentidos: no comportamento dos trabalhadores, dos patrões, e
finalmente, dos poderes públicos.
Basta ver o resultado da greve dos tipógrafos de
Lyon: as autoridades da cidade, tomando o partido dos patrões, pediram
providências ao rei Francisco I, em Paris. O rei baniu a associação
dos Griffarins, proibiu que os jornaleiros se reunissem em grupos de
mais de cinco e decretou que eles não poderiam deixar nenhum trabalho
por terminar para entrar em greve. Nada de muito diferente acontecerá
até o nosso século.
(*) Armando Mendes, da equipe do Correio.
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