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BRASIL 500 ANOS: O DÉCIMO QUINTO DIA DA VIAGEM

Terra à vista

A tripulação festeja a vista da ilha de São Nicolau, mas Cabral, para espanto dos marinheiros, não aporta nem para pegar água. Desconfia-se que Cabral carregue um segredo

Obra do pintor renascentista Joachim Patenier (1485-1524) exibe Hades, o deus grego, conduzindo um passageiro pelas águas escuras da morte

‘‘E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos houvemos vistas das Ilhas de Cabo Verde, a saber da Ilha de São Nicolau’’
Pero Vaz de Caminha, na carta de achamento do Brasil.

Domingo, 22 de março de 1500. Os marinheiros fizeram foguetório, os padres rezaram e o piloto Pero Escolar comemorou: terra à vista! Hoje, perto das 10h, a frota chegou ao arquipélago de Cabo Verde. São 10 ilhas grandes e algumas ilhotas, a 600 quilômetros da costa oeste da África, em frente ao que depois se chamará Senegal.

  Com os portulanos nas mãos, Escolar mostrou a Cabral que a esquadra estava em frente à ilha de São Nicolau, ocupada pelos portugueses desde 1460. Em meados do século XV, o infante dom Henrique percebeu que o Atlântico era um labirinto de ilhas que precisavam ser conhecidas e colonizadas. Serviriam como portos estratégicos para abastecimento das naus e caravelas que navegam na Carreira das Índias.

  Os 4 430 quilômetros quadrados de Cabo Verde também cumprem papel importante na geopolítica quinhentista. Em 1494, com o Tratado de Tordesilhas, que repartiu o mundo entre lusitanos e espanhóis, acertou-se que todas terras encontradas a 370 léguas a oeste de Cabo Verde pertenceriam a Portugal. Este arquipélago passou a ser então o ponto zero de um mundo inteiro por descobrir — inclusive o Brasil.

  Mas hoje pela manhã quando um marinheiro avisou com o apito a proximidade da terra firme, os marujos não estavam preocupados com geopolítica. Queria desembarcar. E se decepcionaram. Cabral não autorizou que saíssem dos navios. Sequer atracou para reabastecer a esquadra com água doce.

  O comandante cumpria assim a instrução que Vasco da Gama lhe entregara em Lisboa. ‘‘Depois que em boa hora daqui partirem, farão seu caminho direto à ilha de São Nicolau. E se ao tempo que aí chegarem tiverem água em bastante para quatro meses não devem passar na dita ilha nem fazer nenhuma demora’’, escreveu Gama, na carta que Cabral guarda com cuidado em seu cabine.

  Muitos historiadores acham que o comandante não parou porque guardava um segredo: sabia da existência das terras brasileiras um pouco mais à frente e por isso não precisaria se abastecer da água de Cabo Verde. Teria outra — e melhor — aguada adiante.

  Outros especialistas, como o português Jorge Couto, conceituado brasilianista, argumentam que o tempo ficaria curto para Cabral se ele parasse em Cabo Verde e depois desembarcasse no Brasil. Perderia, assim, as monções de verão no Oceano Índico e correria o risco de enfrentar longas calmarias, tormento que infernizou Vasco da Gama em 1498.

  Até aqui o desempenho do inexperiente Cabral é exemplar. Superou até o do celebrado Vasco da Gama. As embarcações cabralinas venceram as 800 milhas que separam as Ilhas Canárias de Cabo Verde em oito dias, com uma velocidade média de quatro nós, ou oito quilômetros por hora. Vasco da Gama fez o mesmo percurso em 20 dias: enfrentou cerração e chegou a perder um dos barcos no caminho.

  Os homens de Cabral tiveram mais sorte. Chegaram a Cabo Verde sem nenhum contratempo. Hoje, foram dormir, tranqüilos, iluminados pela lua. Antes, fizeram rápida missa para agradecer a mansidão do Mar Oceano.

(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.






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