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O MUNDO NA ÉPOCA

Mapas e portulanos, mistérios e segredos

 

Portulano de 1546 retrata um desembarque no Canadá, em 1541
Carta náutica em pergaminho, de cerca de 1550, exibe o Atlântico Norte

O pequeno mundo de Cabral está ávido por conhecer o mundo todo. Os portugueses, espanhóis, italianos, todos querem saber os segredos d’além mar, as descobertas de novas terras, novas riquezas. Nessa época, os mapas, os planisférios, as cartas de marear, os portulanos, tudo que revele um pouco do que se esconde no Mar Oceano vale ouro, literalmente. Em 1502, um espião chegará a desembolsar doze ducados de ouro, uma belíssima quantia, para contratar o trabalho clandestino de um lisboeta capaz de fazer um planisfério — representação do globo terrestre em superfície plana. Sua missão de espionagem em Lisboa será patrocinada por um duque italiano.

  Desde o século XIII, italianos e catalães produziam portulanos. São cartas náuticas, desenhadas em pergaminho, ricamente ilustradas, mostrando os rumos que se deve tomar para ir de um porto a outro, alertando para os principais acidentes das costas. As informações são produto da experiência prática dos marinheiros e não trazem nenhum dado da ainda incipiente navegação astronômica, que leva em conta a observação das estrelas. São precários, mas em alguns casos espantosamente precisos.

  No século XIV, há portulanos que já assinalam a localização das ilhas Canárias e da Madeira. São informações preciosas. Esses arquipélagos no Atlântico têm várias utilidades: são terras férteis, servem para proteger o comércio português na costa ocidental da África e ainda se prestam de refúgio ou escala na luta para descobrir o caminho para as Índias. Agora, no século XV, os cartógrafos portugueses começam a desenhar portulanos da costa africana. O império português está avançando por ali — celeremente e, às vezes, secretamente.

  Especula-se que Portugal promoveu várias viagens secretas ao sul da África, por onde chegaria às Índias. Em 1488, Bartolomeu Dias voltou a Lisboa trazendo a grande notícia: descobrira que, dobrando o Cabo das Tormentas, mais tarde rebatizado de Cabo da Boa Esperança, se chegava às Índias. Mas Portugal só lançará uma frota para contornar a África nove anos depois, com Vasco da Gama. Nesses anos todos, o que Portugal fazia? Talvez, as viagens clandestinas para certificar-se da rota mais conveniente.

  E por que clandestinas? Porque Cristovam Colombo vivia a procurar o caminho para as Índias. Estava equivocadamente convencido de que, navegando para o Ocidente, em vez de encontrar a América, chegaria ao paraíso hindu das especiarias. Esperto e matreiro, dom João II, rei de Portugal, fez de tudo para mantê-lo no engano. O rei já supunha que pelo sul da África se chegava às Índias. Por isso, simulou um vívido (e falso) interesse pelos planos de navegação de Colombo, mas deixou que os executasse às custas dos espanhóis. Enquanto Colombo procurava as Índias perdido no Ocidente, Portugal ganhava tempo para fazer a rota certa.

  E por que tanto interesse nas Índias? Porque outro trabalho de espiões confirmou a Portugal as riquezas que havia por lá. Em 1487, ano em que Bartolomeu Dias deixa Lisboa para dobrar o Cabo da Boa Esperança, dom João II manda dois espiões por terra. Um, Afonso de Paiva, faria contato com o soberano da Abissínia (atual Etiópia), cujo reino, estratégico, fica à beira do Oceano Índico. Outro, Pêro da Covilhã, um escudeiro que sabia falar árabe, estudaria os portos e a navegação na região do Índico.

  Apesar dos imprevistos, a missão foi um sucesso. Paiva, vítima de uma peste, morreria logo. Mas Covilhã não apenas cumpriria sua missão como também a de Paiva na Abissínia, onde viveu, casou-se e morreu com honras de nobre. Suspeita-se que Covilhã informou dom João II da importância de um entreposto comercial que vira na Índia, chamado Calecute. É exatamente aí, em Calecute, que a frota de Vasco da Gama aportará anos depois, no dia 20 de maio de 1498, dando início a conquista asiática do império português.

  Três anos depois, em 1501, quando Cabral já voltara a Lisboa depois de achar o Brasil e viajar até a Índia, dom Manuel I, que sucedeu a dom João II, mandou uma carta aos reis da Espanha contando a aventura marítima. A carta tem 156 linhas, fala longamente da Índia — e dedica ao Brasil apenas quatro linhas. Talvez o Brasil não fosse importante, no máximo uma escala para viajar à Índia. Ou, quem sabe, estivesse em jogo, mais uma vez, a diplomacia de espionagem, segredos, sutilezas, despistes e dissimulação.

(*) André Petry, da equipe do Correio.

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