logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O DÉCIMO SEXTO DIA DA VIAGEM

A infeliz armada

Os naufrágios e outros infortúnios que puseram a perder seis naus e 750 vidas, inclusive as de Caminha, o escrivão, e de Bartolomeu Dias, o ‘‘Capitão do Fim’’. E por que o mar comia os navios e os homens

Obra de Tintoretto (1518-1594) em que um náufrago é salvo do afogamento: o mar inchando aos céus e mergulhando no fundo do inferno naus e tripulantes

Segunda-feira, 23 de março de 1500. No imaginário dos marinheiros que navegam por esses mares ignotos, o Horror tem a forma de uma serpente marinha em noite de tempestade raivosa, contorcendo-se entre ondas gigantes que açoitam o topo dos mastros. Mas o Atlântico, o Mar Tenebroso, se apresenta aos marinheiros mais pacífico do que nunca nesta manhã de segunda-feira, no arquipélago de Cabo Verde. E é, no entanto, nesta exata e calma manhã que desaba sobre a frota de Pedro Álvares Cabral o primeiro de uma série de infortúnios que, ao final da jornada, terá devorado seis dos 13 navios e metade das 1 500 vidas embarcadas.

  São 8h quando o desassossego vence o silêncio: sumiu a nau de Vasco de Ataíde. Sumiu simplesmente, ‘‘sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse’’, escreve Pero Vaz de Caminha, nove meses antes de se tornar, ele próprio, uma das centenas de vítimas da armada. (No dia 16 de dezembro de 1500, o escrivão tombará entre os 50 mortos do ataque de árabes e hindus à feitoria portuguesa em Calecute). Com a nau de Vasco de Ataíde acabaram de sumir 150 homens, sem que nunca mais se saiba de seus corpos nem de suas almas. ‘‘Comeu-os o mar’’: é assim que se diz nesses tempos de mares a devorar com fome infinita a madeira das embarcações e a carne dos marinheiros.

  Estranho. Cabral traz consigo instruções precisas de Vasco da Gama, seu antecessor nessas águas até bem pouco tempo desconhecidas, recomendando que os navios naveguem sempre em conserva (uns às vistas dos outros). ‘‘Antes que daqui parta, fazer mui boa ordenança para não se perderem um dos outros (...) Cada vez que houveram de virar, fará o capitão-mor dois fogos e todos lhe responderão com outros dois cada um’’, escreveu Gama a Cabral. Terá o capitão-mor de primeira-viagem, que só conhece os mares pelos livros, deitado fora as instruções do Almirante das Índias, o descobridor da rota das especiarias?

  Seja como for, não haverá sumiços misteriosos no próximo e mais trágico infortúnio que, finda a escala de dez dias na terra que um dia será chamada Brasil, se abaterá sobre as 11 embarcações da esquadra. (Além da nau perdida de Vasco de Ataíde, foi-se para Portugal a dos mantimentos, ou das saudades, levando a carta de Caminha a El Rey e mensagens dos marinheiros para mulheres e filhos que nunca mais veriam.)

  Haverá, talvez, no desastre que se avizinha, o mau-presságio desse cometa que na noite de 12 de maio aparece ‘‘para as partes da Arábia, com uma cauda muito comprida’’, e brilha ‘‘de contínuo oito ou dez dias’’, de acordo com o desconhecido tripulante da frota que escreve o documento batizado pela História de a Relação do Piloto Anônimo.

  Até que num domingo, 24 de maio de 1500, quando a frota dobrava o Cabo da Boa Esperança para retomar o caminho das Índias, ‘‘veio um vento tão forte pela vante e tão repentino, que não o notamos senão quando as velas ficaram atravessadas nos mastros. Naquele instante se perderam quatro naus com toda a sua gente, sem podermos prestar-lhes socorro algum. As outras sete que escaparam estiveram em perigo de perder-se. (...) E à misericórdia de Deus andamos assim todo aquele dia. E o mar inchou de tal modo que parecia que subíamos ao céu’’, escreveu o piloto anônimo, traduzindo o horror. Quatrocentos homens: comeu-os o mar.

  Dispersa, a frota navegou errante por 20 dias em meio à tormenta. Além das quatro naus engolidas pelo Oceano, desgarrou-se a de Diogo Dias, que passaria mais de um ano perdida até ser reencontrada por Cabral já na viagem de volta a Lisboa, na altura de Bezeguiche (hoje Dacar). Da tripulação original de 150 homens, tinha, então, a bordo, não mais que sete, famintos e doentes — e um deles morreria de emoção ao rever os companheiros.

  Quatro meses depois da tragédia do Cabo da Boa Esperança, as seis embarcações sobreviventes, com as velas rotas e as tripulações estropiadas, chegariam a Calecute, cumprindo, enfim, a missão que muita pimenta rendeu e tantas vidas perdeu. No início da viagem de volta a Lisboa, a nau de Sancho Tovar, abarrotada de especiarias, ainda haveria de encalhar num banco de areia, sendo incendiada por ordem de Cabral, com a tripulação posta a salvo.

  Quanto às quatro naus perdidas com suas gentes no mar inchado do Cabo da Boa Esperança, que alçava os marinheiros aos céus para no instante seguinte mergulhá-los no fundo do inferno, os mortos que as comandavam eram Aires Gomes da Silva, Luís Pires, Simão de Pina e o herói Bartolomeu Dias. O mesmo Bartolomeu Dias que 12 anos antes provara que o continente africano tinha fim e que as Índias podiam ser alcançadas ao vencer-se esse cabo. Esse mesmo promontório que, num breve lampejo de sua agonia futura, o ‘‘Capitão do Fim’’ preferiu chamar de Cabo das Tormentas, não da Boa Esperança.

(*) José Rezende Jr., da equipe do Correio.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.