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O MUNDO NA ÉPOCA

Por que come o mar gentes e naus

 

Vasco de Ataíde: sumiu em 23 de março de 1500
Aires da Silva: naufragou em 24 de maio de 1500
Luís Pires: afundou no mesmo dia que Aires da Silva
Simão de Pina: também afundou na mesma tempestade
Bartolomeu Dias: vítima do mesmo naufrágio de 24 de maio
Sancho Tovar: encalhou na volta e teve o navio incendiado

Os árabes são grandes navegadores. Um deles, o legendário Ahmed ibn Madjid, o maior de todos os tempos, guiou Vasco da Gama pelos labirintos do Oceano Índico. Se não fazem os árabes o caminho inverso ao dos portugueses, contornando a África para chegar ao Ocidente, é pelo desinteresse em visitar uma parte do mundo menos desenvolvida que a deles. E por acreditarem que, submersa no canal de Moçambique, jaz uma enorme pedra magnética, que os levaria direto ao túmulo no fundo do mar. Por garantia, constroem seus navios sem um prego sequer, atando com cordas o madeirame.

  Mas os navegadores do Levante não estão sozinhos nas superstições. Até bem pouco tempo, portugueses e espanhóis acreditavam que além do cabo Bojador ficava a terra de Satanás, onde o calor do sol fervia o mar, incendiava a madeira e as velas dos navios, e tornava negros os homens. O que só seria desmentido por Gil Eanes, em 1434, ao cruzar o Bojador são e salvo e branco como sempre.

  Desde os gregos antigos, já se especulava sobre o formato da Terra e um deles, Eratóstenes, chegou a calcular, com espantosa precisão, sua circunferência. Mas alguns ainda acreditavam que a Terra pudesse ser plana e que, portanto, em algum lugar, em algum momento, o mar despencaria no Grande Abismo, levando junto barcos e tripulações. A prova irrefutável de que o planeta era redondo como uma laranja viria 22 anos depois da viagem de Cabral, quando o que restou da frota de Fernão de Magalhães, depois de navegar sempre na mesma direção, chegou de novo a Sevilha, o porto de onde partira três anos antes com seis naus e 265 homens (dos quais perderam-se cinco embarcações e mais de 230 vidas, inclusive a do próprio Magalhães).

  Mas se a Terra é redonda e não existe o Grande Abismo, nem o Grande Ímã dos árabes, menos ainda as serpentes marinhas, porque come o mar tantas gentes e tantas naus? Dos 806 navios que entre 1497 e 1612 partiram de Portugal para a Carreira das Índias, 381 não regressaram. Pelo menos um terço dos marinheiros — quando não a metade, como na frota de Cabral, ou quase toda a tripulação, como no caso de Fernão de Magalhães — perdia-se no mar.

  São muitas as causas da perdição. Uma rajada de vento que rasga as velas, parte os mastros, arranca os lemes. As vagas gigantes que arrebentam os cascos e sacodem os navios como cascas de noz, antes de devorá-los. O choque contra os baixios invisíveis. A inexperiência da gente do mar, muitas vezes garotos que sequer sabem nadar. (Os encarregados de manejar o leme de uma das naus da Carreira das Índias não conseguiam distinguir a bombordo da estibordo, o que obrigou o comandante a instalar uma réstia de alho num lado da embarcação e uma de cebola no outro e gritar ‘‘Virar o alho!’’, quando queria que manobrassem a estibordo, e ‘‘Virar a cebola!’’, quando a bombordo.)

  Muitas das vezes, as naus afundam pelo excesso de peso, na volta das Índias. O rei assina leis proibindo a sobrecarga, mas é inútil. Cada espaço disponível vai sendo preenchido por caixas e caixas de pimenta e outras especiarias, até que não há mais lugar a bordo e os homens as penduram do lado de fora das embarcações, tornando especialmente perigosa a navegação.

  E é assim que os que voltam das Índias trazem as especiarias que podem significar tanto a fortuna quanto a perdição. E é assim que, muitas vezes, as naus vão para o fundo do mar arrastadas pelo mesmo elemento que estufa suas velas e as faz seguir adiante: a cobiça infinita dos homens.

(*) José Rezende Jr., da equipe do Correio.

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