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BRASIL 500
ANOS: O DÉCIMO SÉTIMO DIA DA VIAGEM
Em busca do barco perdido
Os marinheiros de Cabral, tomados pelo medo, procuram
o barco desaparecido ontem, rondam as ilhas e nada encontram. Quais
eram as profissões da época e o desprezo reservado aos homens do mar
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| Tela de Cassoni Campana
(sabe-se apenas que o pintor viveu no início do século XVI) conta
a história de Teseu em que Ariadne guia seu amado pelo labirinto:
alguns homens gritam, outros imploram para voltar para casa
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Terça-feira, 24 de março de 1500. Os marinheiros estão
exaustos e apavorados. Passaram o dia procurando pelo barco de Vasco
de Ataíde, desparecido desde ontem. Navegaram na direção norte, rodearam
a ilha de São Nicolau, passaram pela outras nove ilhas do arquipélago
de Cabo Verde. Quase todas são habitadas por colonos portugueses, algum
deles poderia ter notícias de Ataíde.
O comandante Cabral mandou que toda a tripulação
ficasse atenta ao céu — em caso de sumiço, a combinação é lançar fogos.
Também pediu que ninguém tirasse os olhos das águas — barcos naufragados
costumam deixar vestígios de madeira. Em vão.
A noite chegou sem qualquer sinal da nau e seus 150
tripulantes. Parece que megulharam no labirinto de Creta, mas não tiveram
a mesma sorte de Teseu, que encontrou a saída graças ao fio presenteado
pela amada, Ariadne. Aqui, o labirinto é este mar calmo, de águas espessas
e famintas.
Os marujos temem agora que a tragédia se repita com
as outras 12 embarcações da frota. Alguns homens gritam, outros imploram
para retornar para casa. Muitos rezam nos altares da proa e da popa.
“O mar é o lugar do medo na Renascença”, analisou séculos depois o historiador
francês Jean Delumeau, em seu livro História do Medo no Ocidente.
Em terra firme não faltam anedotas e máximas para resumir
dos marinheiros desta frota. ‘‘Louvai o mar, mas conservai-vos na margem’’,
ensina um ditado latino. ‘‘Mais vale estar com uma velha carroça do
que no mar num navio novo’’, dizem os franceses. E até os brutos russos
ironizam o destino dos marinheiros: ‘‘Louvo o mar sentado no aquecedor’’.
‘‘Que loucura confiar-se ao mar’’, escreveu Erasmo, escritor holandês
renascentista, em seu colóquio Naufragium.
Quando anoiteceu, Cabral mandou que os comandantes
e pilotos de todos os barcos fossem em botes até a nau capitânia para
uma reunião urgente. Queria decidir se continuavam procurando Vasco
de Ataíde por mais um dia ou se seguiam viagem amanhã pela manhã.
Iluminados pelas tochas que os pequenos grumetes
seguravam, os 12 comandantes optaram por encerrar as buscas e avisaram
aos tripulantes que, amanhã cedo, as velas içarão. Não vão alterar a
rota, continuarão no rumo sudoeste.
Quando terminou a reunião, os padres balançaram os
aspersórios de prata para benzer o mar. O escrivão Pero Vaz de Caminha
anotou com bico de pena o resumo da triste jornada de hoje: ‘‘Fez o
capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não
apareceu mais’’.
(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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