logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

Navegar, uma profissão desprezada

 

Detalhe de um bimbo chinês do século XVI: gente humilde e anônima
Jonas e a baleia, ilustração de 1299 do Velho Testamento

  Em Paris, quem quiser contratar um trabalhador para as olarias deve ir à praça de Grève. Em Hamburgo, diaristas também se concentram num local público em busca de patrão. Em Avignon, os ‘‘criados de aluguel’’ se oferecem na ponte da cidade. No mundo de Cabral, não existe um mercado de trabalho, uma agência de empregos, nem regras claras para exercer um ofício. É na praça, na ponte, nas feiras livres, que os patrões acham operários e os contratam segundo os termos de um acerto oral.

  A Europa, com a ruína do sistema feudal, está passando por profunda transformação. O trabalhador já não está vinculado ao senhor feudal, não tem um pedaço de terra e, despojado de qualquer outro meio de produzir, oferece na praça o bem que lhe resta: a força dos braços. Nesta época, portanto, o homem está pronto para vender-se ou alugar-se. Está, em outras palavras, ingressando no mundo do salário, entrando num novo sistema, o capitalista.

  O centro econômico das cidades e burgos desta época são as feiras. Ali, acontece de tudo. Encontros, desencontros, amores públicos e clandestinos, discursos políticos, pregações e muito comércio: compra, venda, aluguel, troca. Agricultores leiloam seus serviços. Na definição de um historiador, os diaristas aproveitam as feiras e ofertam-se para ‘‘abater, serrar e rachar madeira; capinar, cavar, fazer a horta, semear legumes; ceifar e guardar feno; cortar o trigo, enfeixar a palha, bater o grão’’.

  Nas feiras, vêem-se as profissões da época. Ali estão as desbocadas vendedoras de peixe, padeiros, açougueiros, debulhadoras de ervilha. Estão carregadores, varredores, carroceiros, circulando entre barras de manteiga, pregos, lenha, cordas, vinho, lã. Só mais tarde o mercado de trabalho ficará um pouco mais claro. Em Paris, um livro de 1692 indicará onde se acha cada tipo de trabalhador. Há uma rua para contratar criada, outra para achar cozinheiro, uma terceira para cirurgiões, boticários, pedreiros. Outros, como marceneiros, tanoeiros, arcabuzeiros, empregam-se por si, indo às lojas.

  Nas feiras, os marinheiros são raros e impressionam quando aparecem, pela rudeza e pela ignorância. Num livro de 1458, Della mercatura e del mercante perfetto, de Benedetto Cotrugli, conta-se que o marinheiro é ‘‘tão ignorante que, quando bebe na taberna ou compra pão na feira, se julga importante’’. Mas são os marinheiros que, fora da segurança da terra firme, estão fazendo, anonimamente, o mundo girar. Apesar de participar do grande progresso da época, eles são desprezados, tidos como oportunistas, ásperos.

  São fex maris, ou lixo do mar. E sofrem o diabo para navegar. Muitos nem querem. Documento de 1622 conta que, para vencer a escassez de gente para tripular as naus que iam de Lisboa à Índia, alguns eram ‘‘trazidos amarrados do interior do reino onde nunca tinham visto água nem mar’’. E, quando as naus na Índia voltavam a Lisboa, recrutavam-se ‘‘marinheiros à força assaltando naus estrangeiras’’. Essa gente humilde e anônima, que impulsionou a expansão européia, nem sempre obteve a recompensa devida.

  Veja alguns exemplos extraídos de um texto de Raffaella D’Intino a partir de cartas enviadas ao rei por marinheiros desafortunados:

* Gonçalo Roiz foi marinheiro por 25 anos: esteve numa nau que se abriu ao meio e fez água. Naufragou na costa da África e arriscou a vida para salvar o ‘‘cabedal do rei’’, perdeu-se uma vez nas ilhas e, segundo a carta que escreve ao rei, está ‘‘muito pobre’’.

* Simão Luiz foi marinheiro por 10 anos: perdeu-se num galeão e jogou-se ao mar para salvar gente, cabedal e artilharia. Ficou cativo de inimigos. Uma vez nafragou e perdeu tudo.

* Manuel Azevedo, ao escrever ao rei, era marinheiro havia ‘‘19 anos, 5 meses e 18 dias continuados’’: numa nau, ficou com ‘‘seis para sete palmos’’ de água. Enfrentou ‘‘cruel tempestade’’ que lhe quebrou o leme. Só ele e mais seis sobreviveram, 140 morreram.

  E as viúvas dos marinheiros, muitas vezes, ficavam ao desamparo:

* Francisca Nunes, viúva de Francisco Gonçalves, que navegou por 20 anos e morreu afogado na nau Santa Catarina de Ribamar, está ‘‘muito pobre, moça, sem remédio algum para passar a sua vida’’.

* Catarina da Costa, viúva de Manuel Nunes de Almeida, que morreu afogado num naufrágio na barra de Lisboa, está ‘‘muito pobre e desamparada com um filho e uma filha’’.

* Ana Roiz, viúva do capitão Cristovão de Abreu, marinheiro por 41 anos, com vários naufrágios no currículo, não tem ‘‘mercê alguma a ser julgado a ela e seus filhos’’.

(*) André Petry, da equipe do Correio.

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