logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O DÉCIMO OITAVO DIA DA VIAGEM

Anarquia a bordo

A frota de Cabral deixa para trás a nau desaparecida, mas a tripulação não tem tempo nem espaço para melancolia: navega-se entre caixas, caixotes, montes de mercadorias, bagagens e animais vivos

Ilustração mostra o exíguo espaço dos marinheiros nos navios:dificuldade de caminhar da proa à popa

Quarta-feira, 25 de março de 1500. Os marinheiros tomaram o rumo sudoeste, mas seus olhos ainda estão voltados para trás: para a tragédia que deixou em algum lugar deste Oceano os 150 homens da nau de Vasco de Ataíde, comidos pelo mar há dois dias. Mas nos barcos não há lugar para melancolia: falta privacidade. Os marujos não conseguem ficar sozinhos. Todos os espaços estão amontoados de gente e de carga. Não é problema exclusivo desta esquadra.

  Um documento do século XVI, guardado na biblioteca da Ajuda, em Portugal, mostra com detalhes o que se passa no interior destas embarcações de madeira, quase todas com três andares, um porão e alguns compartimentos. (Só a partir do século XV, coincidentemente os navios e as casas ganharam divisões internas.) Mas no mar, ao contrário do que acontece nas cidades, a novidade não melhorou a qualidade de vida.

  As quase 300 pessoas que se amontoam em cada nau ou caravela portuguesa durante pelo menos 18 meses de viagem vivem entre fardos, caixas, barris, bagagens pessoais e animais vivos. ‘‘A circulação é impossível, ir da popa à proa é um martírio’’, escreveu um francês, marinheiro de primeira viagem.

  A desordem começa no topo da hierarquia de bordo: os capitães, únicos com direito a camarote sob o castelo de popa, costumam vender, ainda em terra firme, todo e qualquer espaço dos navios para comerciantes interessados em transportar seus produtos nos barcos que vão e vêm das Índias e da África. Os capitães levam também sua própria carga para comercializar: são as chamadas ‘‘caixas de liberdade’’ da qual falamos há cinco dias.

  Toda caravela tem uma varanda para o lazer dos marinheiros, uma tolda onde os soldados dormem, uma câmara ao pé do mastro para a despensa, uma ponte sob a qual ficam as arcas com roupas e o batel para armazenar as amarras. Há também o porão reservado aos tonéis de água, vinhos e bagagem dos marujos e grumetes. Mas todos esses lugares terminam ocupados por barris com pimenta, gengibre, noz, anil, cravo, canela — a chamada ‘‘fazenda’’ , a mercadoria que fará valer a pena o sacrifício das jornadas em alto-mar.

  Desalojados, os soldados, grumetes e marujos dormem ao relento no convés. Quando há tempestades se acotovelam no porão, lugar cheio de ratos e baratas. Se o porão está lotado, improvisam barracas com pedaços de couro amarrados em cima do castelo de popa.

  Os pilotos e contramestres imitam seus chefes. Têm direito a pequenos quartos, mas vendem o espaço. E vão além: ocupam os corredores e as meia-cobertas sobre e sob os quartos. Não satisfeitos, colocam os barris de água para fora dos barcos, içados nas grades. Na cabine do piloto, até o lugar do baú com mapas e cartas de marear termina ocupado pelas muambas. No paiol, ao invés de velas, amarras, cabos e enxárcias, há mercadorias e arroz. Resultado: as velas apodrecem no sereno. Como a alma e o corpo destes marujos.

(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.






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