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O MUNDO NA
ÉPOCA
Nas casas, o começo da intimidade
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| A ‘‘mesa da copa’’,
onde ficava tudo que não precisava sair quente da cozinha
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| A rainha da França
é retratada recebendo um livro de presente: todos dormindo no mesmo
quarto
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‘‘Três coisas, diz o sábio,
tiram o homem de casa: chaminé fumarenta, goteira aberta, mulher briguenta’’
provérbio popular do século XIV
O que faz a casa européia do fim da Idade Média e da
Renascença diferente da habitação de hoje? Há muitas respostas, dos
materiais até os aparelhos domésticos. Mas há uma diferença fundamental
que decorre mais das mudanças culturais do que da evolução tecnológica:
a noção de intimidade.
Vivia-se em comum nessa época. A família inteira
e os agregados compartilhavam, dia e noite, os poucos cômodos da casa.
Os nobres e a burguesia emergente se davam a um conforto relativamente
novo: o quarto privado de dormir. Mas esse era um costume que levaria
ainda alguns séculos para se generalizar.
Vejamos a descrição de uma casa francesa dos séculos
XV e XVI. Pertence a um forjador de ferro, um humilde ofício urbano,
e compõe-se de duas peças: a oficina de ferreiro no térreo e um aposento
no andar de cima que serve de sala, quarto e cozinha. Nada mais.
Acima do forjador na escala social da época, um barbeiro
podia ostentar uma casa maior, com três cômodos: na frente, a barbearia,
onde trabalhava com suas bacias, cadeiras, navalhas, pedras de afiar
e lancetas de sangrar.
Ainda na frente, uma sala/quarto/cozinha. Atrás deste,
um segundo quarto. Além desses cômodos de habitação, o barbeiro tinha
ainda, atrás da barbearia, um celeiro para guardar trigo e outros mantimentos.
Seus ganhos já lhe permitiam estocar comida, um luxo inacessível ao
forjador.
A presença do segundo quarto mostra que nosso barbeiro
era sensível às modas urbanas. Tentava imitar, no limite de suas posses,
os costumes da burguesia (não é o último a fazer isso; a classe média
não cessará mais de copiar os ricos).
Mas o quarto privado de dormir não era comum, mesmo
entre citadinos de maiores posses. Predominava ainda o costume medieval
que reunia, numa só casa, o mestre artesão, sua família, os jornaleiros
e os aprendizes que trabalhavam para ele.
A oficina de trabalho e a sala/cozinha eram os lugares
da convivência dessa família ampliada. As casas que dispunham de um
terreno maior podiam exibir um pátio aberto entre a oficina da frente
e a sala/cozinha dos fundos, às vezes com uma fonte de água no centro
ou no canto e uma galeria coberta ao longo de uma das paredes laterais.
Qualquer que fosse a planta baixa, seus habitantes
trabalhavam juntos o dia inteiro na oficina e faziam as refeições em
torno da mesa da sala/cozinha. À noite, era comum que dormissem todos
no mesmo aposento, convertido em dormitório.
Entre os ricos, isso muda de figura. São comuns as
grandes casas e palacetes com dezenas de aposentos, entre eles os quartos
privados dos senhores, seus filhos e dos parentes que moram com eles.
Poucos são tão magníficos quanto os de Florença e Veneza, construídos
no século XV.
Mas as noções de privacidade, como as conhecemos
hoje, ainda não se firmaram mesmo entre os muito ricos. Os quartos,
por exemplo, podem ser enfileirados um em seguida ao outro, com portas
entre eles, sem um corredor ou área de circulação comum que permita
o acesso direto a cada um. Para chegar ao quarto mais ao fundo da casa
é preciso passar por todos os quartos que ficam antes dele.
É igualmente habitual entre os ricos que as criadas
durmam no mesmo quarto dos senhores, prontas a atender a seus chamados.
Mas há outra diferença fundamental entre as casas dos ricos, dos pobres
e da classe média: a mobília.
Os pobres têm, quando muito, camas simples — às vezes,
uma cama só para toda a família, ou algumas camas compartilhadas por
todos — e mesas e bancos rústicos. Os mais miseráveis, nem isso. Dormem
na palha, comem no chão. As paredes são descobertas. O piso, de terra
batida.
Os ricos e os nobres revestem chão e paredes (de
pedra ou madeira) com ricas alcatifas e tapeçarias e guardam seus pertences
em elaboradas arcas. Seus tetos são forrados de madeira trabalhada.
A nascente classe média equilibra-se entre esses extremos.
E a higiene? Era rudimentar, mesmo entre os ricos.
Neste momento da história da Europa, o vaso sanitário apenas começa
a ser instalado num aposento próprio, principalmente nas casas da burguesia.
Até então, é tudo muito simples. As necessidades
fisiológicas são resolvidas na rua ou no bosque, ao ar livre. Ou, no
máximo, em vasos que serão depois esvaziados nos fundos da casa ou no
riacho que atravessa a cidade — apropriadamente apelidados de merderels
na França medieval.
(*) Armando Mendes, da equipe do Correio.
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