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BRASIL 500 ANOS: O SEGUNDO DIA DA VIAGEM

Enfim, o mar

Depois de um dia paralisada na foz do Tejo, a frota enfim lança-se ao Mar Oceano, deixando Lisboa para trás. Como eram as grandes cidades do mundo renascentista

Segunda-feira, 9 de março de 1500. Treze navios deixam para trás a barra do Tejo e ganham as águas do Atlântico, o Mar Oceano. A missa, a festa, as bênçãos reais e o embarque foram ontem, no domingo. Mas faltou o vento.

  Foi preciso esperar a manhã da segundapara que as brisas do Norte fizessem seu trabalho e começassem a empurrar a frota do comandante Pedrálvares (como ele era conhecido) para longe da Praia do Restelo. Descendo o rio, os barcos têm de passar pelos bancos dos Cachopos, uma perigosa armadilha, antes de ganhar o mar aberto.

  Para os marinheiros, é a hora da despedida de terra. Somem no horizonte as últimas vistas de casa: a aldeia de Cascais, o cabo Raso e a ameaçadora Roca de Sintra, da qual ninguém menos que o genovês Cristóvão Colombo, o almirante do Mar Oceano, escapara por muito pouco há exatos sete anos (em março de 1493, voltando à Europa depois de descobrir a América para os reis espanhóis, Colombo quase naufragou no cabo da Roca, na entrada do Tejo).

  Que cidade é esta Lisboa que 1 500 homens deixam para trás sem a certeza de que voltarão? Com uns 60 mil habitantes, está entre as grandes capitais da Europa, suplantada em população apenas por Paris e pelas maiores cidades italianas e flamengas (veja texto abaixo).

  É uma cidade enérgica, agitada, no auge de sua vitalidade. Vive do mar e para o mar. A Ribeira das Naus, trecho da margem do Tejo abaixo do centro antigo, concentra a construção dos navios, a maior indústria de Portugal. Nesta época de navegações, é o coração da cidade.

  Aqui pulsa a vida cotidiana: vendedoras de sardinhas assadas — a comida dos pobres — montam seus braseiros para alimentar os trabalhadores da construção naval. Outras levam tabuleiros de ameixas e panelões de tripas, favas, arroz, cuscuz e peixe, para vender nas ruas da cidade.

  A Ribeira é um formigueiro de etnias e de línguas. Fervilha de estrangeiros: italianos e alemães na maioria, mas também flamengos, espanhóis e franceses, judeus e muçulmanos. Alguns são comerciantes, pilotos, marinheiros, matemáticos, astrônomos e cartógrafos. A maioria, simples aventureiros em busca de fortuna.

  Todos foram atraídos a Portugal pelo grande empreendimento técnico e comercial das navegações. Outros, ainda, são os escravos e trabalhadores forçados trazidos nas navegações pioneiras do século XV, principalmente mouros e africanos. Em conjunto, dão à velha cidade os ares do porto cosmopolita.

  Um desses visitantes, o alemão Hyeronimus Münzer deixou um relato deslumbrado do que viu em Lisboa em 1494, seis anos antes da partida de Cabral. Ele conta de um camelo, leões, serpentes e crocodilos, lanças, arcos e flechas que atestam a passagem dos portugueses pelos reinos da África.

  Münzer relata ainda uma visita às fundições da Casa da Mina, onde se fabricam canhões, âncoras, escudos e outros apetrechos para o equipamento dos navios. ‘‘Em comparação com tudo isso, as instalações e as fábricas de Nüremberg são quase nada’’, conclui. Em 1500, são os países do Sul da Europa que criam tecnologia de ponta, uma situação que mudará em um ou dois séculos.

  Mas o redemoinho das navegações ainda não modificou substancialmente o desenho urbano e arquitetônico de Lisboa. O traçado tortuoso das cerca de trezentas ruas e oitenta e nove becos, segundo contagens da época, resiste à determinação do rei dom Manuel de ‘‘alargar e polir’’ sua capital.

  A senhora dos mares, neste ano de 1500, ‘‘mal começava a esburacar sua velha mas resistente capa medieval’’, conta o historiador português Jaime Cortesão. ‘‘O vulto e a traça da cidade não obedeciam a qualquer plano de enobrecimento externo’’, afirma ele. ‘‘O burgo tumultuário conservava o ímpeto e a rudeza nativos da grei que o construíra.’’

  Ainda faltam alguns anos para que ela se torne ‘‘a Lisboa manuelina, oriental e faustosa’’. Faltam, entre outros, os edifícios que serão o cartão-postal mais abusado da cidade: a torre de Belém e o mosteiro dos Jerônimos, cuja construção apenas se inicia.

  Daqui a algumas décadas, no final do século XVI, a cidade será diferente, mais rica e suntuosa. Mas terá perdido a energia, o ímpeto conquistador que esbanja em 1500. Nunca mais Lisboa voltará a ser a vanguarda do mundo.

  • Armando Mendes, da equipe do Correio





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