logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O SEGUNDO DIA DA VIAGEM

O mundo na época: Belas e sujas

‘‘O ar das cidades torna os homens livres’’

Provérbio medieval

Qual é o fio que liga as grandes cidades do final da Idade Média e do Renascimento às navegações dos séculos XV e XVI? O comércio, responderá a maior parte dos historiadores. As cidades ressurgem no século XI em torno das feiras nas encruzilhadas dos caminhos, para tornar novamente possíveis as trocas, os contatos entre os povos europeus. São elas que vão juntar os cacos do continente, despedaçado em feudos desde o fim do Império Romano.

  Desde então, cidade e mercado são complementares. Um não existe sem o outro. E o cidadão — o habitante da cidade —, ao contrário do camponês, não é mais vassalo do senhor feudal. É livre para trabalhar e oferecer no mercado o resultado de seu trabalho (daí o provérbio medieval).

  Veneza, construída sobre lagunas do mar Adriático, é a cidade-pivô da economia do Ocidente no momento em que Cabral se lança ao mar. Os mercadores venezianos monopolizam as transações entre Europa e Oriente. Dominam os instrumentos financeiros e guardam ciosamente o privilégio de fazer negócios com os árabes que vão buscar na Índia, na China e no Ceilão as especiarias e tecidos finos consumidos pelos europeus.

  Tudo tem de passar pelo mercado veneziano. Erguida sobre a água, sem terras para cultivar, Veneza é a pura cidade mercantil. Diz-se do veneziano: non arat, non seminat, non vendimiat (não lavra, não semeia, não colhe).

  Veneza é, para um europeu do quattrocento, o que talvez Nova York represente para o nosso tempo: o lugar mais cosmopolita, mais ostentador, o mostruário da variedade e da estranheza do mundo. Um cronista da época incita o viajante: ‘‘Se tiveres a curiosidade de ver homens de toda parte do mundo, vestidos cada qual a seu modo diversamente, vai à praça de São Marcos ou à do Rialto, onde se encontram todos os tipos de pessoas.’’

  Veneza é uma das poucas cidades européias a ter chegado aos 100 mil habitantes no começo do século XVI (as outras são Paris, Milão, Nápoles e Florença). Não impressionam numa escala global. As grandes cidades orientais — Pequim, Constantinopla, Délhi — são maiores. Tenochtitlán, a capital asteca, no Novo Mundo que Colombo acabou de encontrar, tem 200 mil habitantes. Mas os ocidentais ainda não a conhecem. Em comparação, Londres não chega aos 60 mil habitantes de Lisboa; a flamenga Bruges deve ter uns 70 mil, e as cidades da Alemanha não passam de 35 mil.

  E como eram essas cidades? Ainda guardavam muito do burgo medieval: muralhas espessas para a defesa, ruas estreitas e tortuosas, casas baixas, de um ou dois andares. As torres da igreja dominam a paisagem urbana.  Tinham a escala aconchegante e a beleza arquitetônica que ainda hoje nos fazem visitá-las (as que sobreviveram). Mas fediam. Era comum não haver esgotos. Os dejetos humanos e o lixo eram despejados nas ruas. Vivia-se pouco, adoecia-se muito. A mortalidade de crianças e adultos é apavorante, pelos padrões atuais.

  Casa e lugar de trabalho ainda não se tinham separado. O artesão urbano morava em cima da loja ou oficina onde praticava seu ofício. E que ofícios eram esses?  Uma procissão religiosa testemunhada pelo pintor Albrecht Dürer nos Países Baixos dá uma idéia da variedade de corporações profissionais. Ele descreve, numa carta, a passagem de ourives, pintores, pedreiros, bordadores, escultores, marceneiros, marinheiros, pescadores, alfaiates, sapateiros, além de comerciantes, soldados e magistrados, pelas ruas de Antuérpia, hoje parte da Bélgica.

  Todos são cidadãos de uma cidade próspera que logo sucederá a Veneza como o centro do comércio europeu. A chegada dos portugueses à Índia — a mesma rota que Cabral segue em 1500 — é o agente dessa ascensão. Um navio português carregado de pimenta e noz-moscada do Oriente atraca em 1501 no porto fluvial de Antuérpia. É o primeiro de muitos. É o fim do monopólio veneziano das especiarias. Mas essa é uma história para outro dia. (AM)






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