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BRASIL 500
ANOS: O SEGUNDO DIA DA VIAGEM
O mundo na época: Belas e sujas
‘‘O ar das cidades torna os homens livres’’
Provérbio medieval
Qual é o fio que liga as grandes cidades
do final da Idade Média e do Renascimento às navegações dos séculos
XV e XVI? O comércio, responderá a maior parte dos historiadores. As
cidades ressurgem no século XI em torno das feiras nas encruzilhadas
dos caminhos, para tornar novamente possíveis as trocas, os contatos
entre os povos europeus. São elas que vão juntar os cacos do continente,
despedaçado em feudos desde o fim do Império Romano.
Desde então, cidade e mercado são complementares.
Um não existe sem o outro. E o cidadão — o habitante da cidade —, ao
contrário do camponês, não é mais vassalo do senhor feudal. É livre
para trabalhar e oferecer no mercado o resultado de seu trabalho (daí
o provérbio medieval).
Veneza, construída sobre lagunas do mar
Adriático, é a cidade-pivô da economia do Ocidente no momento em que
Cabral se lança ao mar. Os mercadores venezianos monopolizam as transações
entre Europa e Oriente. Dominam os instrumentos financeiros e guardam
ciosamente o privilégio de fazer negócios com os árabes que vão buscar
na Índia, na China e no Ceilão as especiarias e tecidos finos consumidos
pelos europeus.
Tudo tem de passar pelo mercado veneziano.
Erguida sobre a água, sem terras para cultivar, Veneza é a pura cidade
mercantil. Diz-se do veneziano: non arat, non seminat, non vendimiat
(não lavra, não semeia, não colhe).
Veneza é, para um europeu do quattrocento,
o que talvez Nova York represente para o nosso tempo: o lugar mais cosmopolita,
mais ostentador, o mostruário da variedade e da estranheza do mundo. Um
cronista da época incita o viajante: ‘‘Se tiveres a curiosidade de ver
homens de toda parte do mundo, vestidos cada qual a seu modo diversamente,
vai à praça de São Marcos ou à do Rialto, onde se encontram todos os
tipos de pessoas.’’
Veneza é uma das poucas cidades européias
a ter chegado aos 100 mil habitantes no começo do século XVI (as outras
são Paris, Milão, Nápoles e Florença). Não impressionam numa escala
global. As grandes cidades orientais — Pequim, Constantinopla, Délhi
— são maiores. Tenochtitlán, a capital asteca, no Novo Mundo que Colombo
acabou de encontrar, tem 200 mil habitantes. Mas os ocidentais ainda
não a conhecem. Em comparação, Londres não chega aos 60 mil habitantes
de Lisboa; a flamenga Bruges deve ter uns 70 mil, e as cidades da Alemanha
não passam de 35 mil.
E como eram essas cidades? Ainda guardavam
muito do burgo medieval: muralhas espessas para a defesa, ruas estreitas
e tortuosas, casas baixas, de um ou dois andares. As torres da igreja
dominam a paisagem urbana. Tinham a escala aconchegante e a beleza
arquitetônica que ainda hoje nos fazem visitá-las (as que sobreviveram).
Mas fediam. Era comum não haver esgotos. Os dejetos humanos e o lixo
eram despejados nas ruas. Vivia-se pouco, adoecia-se muito. A mortalidade
de crianças e adultos é apavorante, pelos padrões atuais.
Casa e lugar de trabalho ainda não se
tinham separado. O artesão urbano morava em cima da loja ou oficina
onde praticava seu ofício. E que ofícios eram esses? Uma procissão
religiosa testemunhada pelo pintor Albrecht Dürer nos Países Baixos
dá uma idéia da variedade de corporações profissionais. Ele descreve,
numa carta, a passagem de ourives, pintores, pedreiros, bordadores,
escultores, marceneiros, marinheiros, pescadores, alfaiates, sapateiros,
além de comerciantes, soldados e magistrados, pelas ruas de Antuérpia,
hoje parte da Bélgica.
Todos são cidadãos de uma cidade próspera
que logo sucederá a Veneza como o centro do comércio europeu. A chegada
dos portugueses à Índia — a mesma rota que Cabral segue em 1500 — é
o agente dessa ascensão. Um navio português carregado de pimenta e noz-moscada
do Oriente atraca em 1501 no porto fluvial de Antuérpia. É o primeiro
de muitos. É o fim do monopólio veneziano das especiarias. Mas essa
é uma história para outro dia. (AM)
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