logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O VIGÉSIMO DIA DA VIAGEM

Os mortos-vivos da frota

Vinte homens condenados estão a bordo dos navios. Para continuar vivos, eles aceitam qualquer coisa: até a missão de ficar no Brasil quando Cabral vai embora

Gente do mar; detalhe de óleo sobre tela de André Reinoso (1610-1641), no Museu de S. Roque, Lisboa

‘‘...determinou o capitão dar a saber ao nosso Sereníssimo Rei o achado desta terra e de deixar ali dois degredados e condenados à morte que tínhamos levado na dita armada para tal fim. E imediatamente o dito capitão despachou um navio (...) o qual navio levou as cartas ao Rei na qual se continha quanto tínhamos visto e descoberto. E despachado o dito navio, o Capitão foi a terra e mandou fazer uma cruz muito grande de madeira e mandou cravá-la no dito espaço e também, como se disse, deixou dois degredados no dito lugar, o quais começaram a chorar. Os homens daquela terra confortavam-nos e mostravam ter piedade deles.’’ Relato do Piloto Anônimo (um dos três documentos conhecidos sobre a viagem de Cabral) Sexta-feira, 27 de março de 1500. Ainda há ventos nesta sexta-feira, e a esquadra pode manter o rumo sul. Mais dois ou três dias, e chegará à temida zona das calmarias, por volta dos quatro graus de latitude norte. Mas, por enquanto, os alísios que sopram de nordeste empurram os barcos para mais perto da linha do Equador.   Já falamos de nobres, comandantes, pilotos, marinheiros, pajens e grumetes que compõem esta pequena sociedade flutuante. Falta falar dos degredados, os criminosos sentenciados ao desterro que embarcam em todas as armadas portuguesas.   São condenados à morte aos quais a Justiça real oferece uma troca: comuta-lhes a pena capital se aceitarem enfrentar mares e terras desconhecidos. Todos, ou quase todos, aceitam. Qualquer coisa é melhor do que a morte certa. Estima-se que vinte degredados vão a bordo dos navios de Pedro Álvares Cabral.   Eles sabem que não voltarão a Lisboa. Serão abandonados nas terras que a frota encontrar para misturar-se com os povos nativos e aprender sua língua e seus costumes. No futuro, quem sabe, poderão até usar o que aprenderem para ajudar outros navegadores que chegam às mesmas costas.   Os degredados têm, portanto, uma perspectiva única, diferente de seus companheiros de viagem. Para qualquer navegador, arriscar a vida em oceanos ameaçadores e terras desconhecidas é um jogo, uma aposta: pode morrer, ou pode desembarcar de volta em Portugal vivo, inteiro e, com muita sorte, rico.   Para um degredado, entretanto, o melhor final de viagem possível é um risco aterrador: se sobrevive aos perigos do mar, a fortuna maior a que pode aspirar é ser largado numa terra amena e povoada por nativos amigáveis. Com sorte e astúcia, sobreviverá ao choque e passará o resto da vida em meio a povos estranhos, convivendo com climas, religiões, costumes, línguas e alimentos inteiramente diferentes daqueles em que foi criado.   Não é de estranhar, portanto, que nossos dois degredados chorem e se desesperem ao ver os navios do comandante Cabral se afastarem da costa (que um dia será brasileira). Os nativos, condoídos, tentam confortá-los. Mas, mesmo diante dessa mostra de boa índole, eles estão sozinhos numa terra estranha.   O mais provável é que nunca mais se ouça falar deles. Mas esse é seu papel na história dos descobrimentos: correr o risco extremo de sumir da face do mundo sem nenhuma esperança de recompensa.   Às vezes, muito poucas, o risco vale a pena. Os dois degredados que Cabral deixará no Brasil vão sobreviver. Passarão vinte meses entre os indígenas e, num raro lance de sorte, voltarão a Portugal. Conhece-se o nome de um deles: Afonso Ribeiro.   Ribeiro e seu companheiro serão resgatados em 1501 pela esquadra de Nicolau Coelho, enviado por D. Manuel I para fazer o reconhecimento da terra encontrada por Cabral. Levados a Lisboa, farão um relato minucioso de tudo o que viram diante de um tabelião oficial. Em troca dos bons serviços ao rei, serão perdoados e recompensados.   Mas Ribeiro ainda influirá de outra maneira na história do Novo Mundo. O piloto da frota de Nicolau Coelho é o conhecido navegador florentino Américo Vespúcio. Vespúcio ouve do degredado um relato da sua experiência entre os habitantes da terra.   De volta à Europa, Vespúcio escreverá os mais conhecidos documentos da época sobre o novo continente. Num deles, o Mundus Novus, refutará energicamente a tese de Cristóvão Colombo, de que as terras recém-encontradas a oeste do Atlântico pertencem à Índia.   Não se pode afirmar qual a importância do relato de Ribeiro para a tese de Vespúcio. O navegador florentino também conversou com Pedro Álvares Cabral antes de apresentar sua proposição, de que portugueses e espanhóis tinham chegado, na verdade, a um novo mundo.   O certo é que as cartas de Américo Vespúcio serão traduzidas e reproduzidas por toda a Europa. De tal forma seu nome ficará associado ao novo continente na imaginação dos europeus que as terras encontradas por Colombo e Cabral serão conhecidas, desde então, pelo nome que têm até hoje: as Américas. O condenado à morte participou, de alguma forma, do batismo de um continente.

Armando Mendes, da equipe do Correio






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