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O MUNDO NA
ÉPOCA
Gente honrada e gente baixa
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| Gente do mar; detalhe de óleo sobre tela
de André Reinoso no Museu de S. Roque, Lisboa
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‘‘...perdendo-se a [vida] deles, não se perdia muito’’.
Fernão Lopes de Castanheda, cronista dos descobrimentos portugueses
Quem são os portugueses que embarcam nos navios destinados à Índia
e ao Brasil na condição de degredados? São sempre criminosos condenados
pela Justiça. Mas podem pertencer a duas categorias bem diversas. A
primeira é a dos súditos cuja condição social, na faixa intermediária
entre a gente honrada (os fidalgos) e a gente baixa (o povo em geral),
os protegia de sofrer a chamada pena vil — açoitamentos públicos e outros
castigos humilhantes. Nesses casos, o condenado podia escolher o duvidoso
privilégio de servir dois anos de degredo, geralmente na África. A
segunda é a da gente baixa condenada à morte por crimes graves. Os descobrimentos
portugueses sempre aliaram a exaltação missionária a lances do pragmatismo
mais cru. Este é um deles: se os desgraçados iam morrer mesmo, por que
não empregá-los nas tarefas mais perigosas da esquadra? Se morrem por
isso, não se perde muito, opina cruelmente o cronista Castanheda. Assim,
são os degredados que desembarcam na frente em terras desconhecidas,
nas quais não se sabe se os portugueses serão recebidos com presentes
ou flechas. O primeiro português a pôr os pés em Calecute, o porto indiano
aonde Vasco da Gama chega em 1498, é um degredado. É dele a resposta
famosa — ‘‘vimos por cristãos e por especiarias’’ — à pergunta de um
mouro do porto que fala espanhol e quer saber o que vêm buscar tão longe
os visitantes. Outros são abandonados nas terras encontradas, como
Afonso Ribeiro e seu companheiro. Muitos degredados já tinham sofrido
castigo igual nas costas da África e da Índia, ao longo da gradual expansão
marítima portuguesa, e desaparecido sem deixar rastro. Mas alguns poucos
dos que sobreviveram tornaram-se figuras relevantes na construção do
império oriental português. João Machado, por exemplo; abandonado
na costa africana do Oceano Índico, conseguiu subir a África, atravessar
a Ásia e chegar à Índia por terra, estabelecendo-se no reino muçulmano
de Bijapur. Tornou-se cortesão importante do sultão Adil Xá e — ironia
das ironias — viu-se do outro lado das linhas de guerra, como aliado
dos muçulmanos, quando seus compatriotas atacaram Goa, em 1510. Machado
não se atrapalhou. Usou seu conhecimento das línguas locais e do português
para servir de mediador e intérprete entre os inimigos. E terminou voltando
ao serviço dos portugueses depois que estes finalmente conquistaram
Goa. António Fernandes é outro caso. Carpinteiro de naus também abandonado
na África, garimpou para os portugueses informações valiosas sobre o
reino de Monomotapa, riquíssimo em metais preciosos, no interior do
continente africano (onde hoje ficam o Zimbábue e Moçambique). Explorou
toda a região e morreu por lá mesmo, tratado como um pequeno deus pelas
populações locais. Fixando-se em povoações da costa africana, estes
espiões do império português transmitiam aos capitães das esquadras
que chegavam informações e advertências úteis deixadas pelos navios
que tinham passado por lá. João de Barros, nas Décadas da Ásia, conta
o caso de João da Nova, enviado à Índia um ano depois de Cabral à frente
de nova frota. Ao chegar em Quíloa, nas costa oriental da África,
João da Nova teve notícias da esquadra de Cabral, então no caminho de
volta a Lisboa, por meio de um degredado português que se supõe fosse
o mesmo António Fernandes. Os homens enviados ao mar como carga descartável
podiam, às vezes, reinventar-se como agentes do mesmo rei que os condenara.
(AM)
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