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BRASIL 500 ANOS: O VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA DA VIAGEM

Um mistério

Os marinheiros de Cabral festejam a proximidade do Equador e temem as calmarias. Na frota, estão navegadores experientes, mas os europeus que primeiro pisaram no Brasil são os espanhóis

Retrato de Pereira Pacheco, autor anônimo, século XVII
O espanhol Pinzón, primeiro europeu a chegar aqui

Sábado, 28 de março de 1500. A frota navega por ‘‘esse mar de longo’’, conforme anotou o escrivão Pero Vaz de Caminha. Os barcos estão no rumo sul, um pouco inclinados para o oeste. Os marujos se alegram com a proximidade do Equador, mas temem as calmarias que se avizinham. Os pilotos calculam que amanhã entrarão numa tórrida zona sem ventos.

  Mas se a experiência é mãe das coisas, como se costuma falar em Portugal, não há o que temer. Nesta esquadra, há navegadores com grosso currículo. É o caso de Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Pero Escolar e Nicolau Coelho. Pode haver também uma misteriosa figura. Trata-se de Duarte Pacheco Pereira, nascido em Lisboa, por volta de 1460, e que morrerá numa data incerta, talvez em 1533.

  Vários estudiosos dão como certa sua presença no barco de Cabral, porém não há provas disso. Certo é que Pacheco Pereira vale ser lembrado quando se estuda a era das navegações e quando se discute se Pedro Álvares Cabral sabia ou não que encontraria o Brasil pela frente.

  Cosmógrafo, guerreiro e navegador, Pacheco Pereira escreveu Esmeraldo de situ orbis, minucioso tratado sobre cosmografia e navegações. Dirigida ao rei dom Manoel, a obra trata das descobertas marítimas portuguesas a partir do século XV e, em vários trechos, induz o leitor a crer que Pereira esteve no Brasil em missão real em 1498.

  O respeitado historiador português Jorge Couto é um dos adeptos desta teoria. Baseia seus argumentos em vários trechos do texto de Pacheco Pereira, entre eles o seguinte: ‘‘No terceiro ano do vosso reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela.’’

  Duas dúvidas pesam sobre a tese de Couto:

* Pacheco Pereira escreveu seu trabalho entre 1505 e 1508, portanto depois de Cabral chegar ao Brasil.

* No Esmeraldo não fica claro quem achou tais terras. Se Pacheco ou outro navegador.

  Jorge Couto acha que não há dúvidas. Explica que, entre 1488 e 1498, Portugal fez várias viagens secretas pelo Atlântico para saber o que poderia descobrir e como lucrar com as descobertas. Pereira tinha tudo para ser esse espião. Era amigo do rei. Participara da missão diplomática que, em 1494, assinou o Tratado de Tordesilhas.

  Para Couto, Duarte Pacheco chegou na ilha do Marajó em 1498 e desceu até o Maranhão. Certo ou não, o fato é que se este homem realmente está na expedição de Cabral chegar ao Brasil será fácil. Só uma questão de dias.

(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

 

1 - Historiadores portugueses dizem que Pinzón chegou neste ponto, o Cabo Orange, a atual fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.

2 - O brasileiro Max Guedes, respeitado especialista no assunto, diz que Pinzón aportou aqui, atual ponta de Mucuripe, no Ceará.

3 - Estudiosos espanhóis afirmam que Pinzón ancorou seus barcos neste ponto do litoral, atual Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.

 






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