logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

Os espanhóis chegaram antes

 

   Nem Pedro Álvares Cabral nem Duarte Pacheco Pereira. Nem qualquer outro português. Os europeus que primeiro pisaram no Brasil foram os espanhóis Vicente Yáñez Pinzón e Diogo de Lepe. Chegaram em épocas próximas e fizeram trajetos parecidos. Pinzón desembarcou no litoral brasileiro em janeiro de 1500 e Lepe o fez em fevereiro. Ambos costearam o Nordeste até o Caribe. Lepe saiu de Palos, sul da Espanha, em dezembro de 1499 e voltou em setembro de 1500. Pinzón partiu de Palos um mês antes (novembro de 1499) e voltou um mês depois (outubro de 1500).

  Nascido em 1460, na própria cidade portuária de Palos, Pinzón é um personagem fascinante. Ajudou Colombo a descobrir a América em 1492. Encerrou a viagem com a mesma errônea certeza de Colombo. Acreditava ter desembarcado do outro lado do mundo, nas Índias, precisamente em Cipango, nome do atual Japão. Oito anos depois, em 1500, Pinzón ainda sustentava esta convicção. Queria mais. Sonhava em desbravar aquelas terras encontradas junto com o mestre Colombo.

  Pegou o dinheiro que recebera pela expedição de 1492 e organizou uma esquadra de quatro caravelas e 150 homens. Em 18 de novembro de 1499, deixou Palos rumo ao que achava ser a Àsia. Foi uma viagem tumultuada. Em 21 de janeiro, logo depois do Equador, ‘‘nasceu uma terrível tempestade de ondas e turbilhões de ventos’’, como descreveu Piero Martir de Anghiera, que traduziu a viagem de Pinzón com belas frases no livro De Orbe Novo Decades Octo (As oito décadas do Novo Mundo). O livro, de 1501, foi feito a partir de uma entrevista com o próprio Pinzón, quando o navegador voltou à Espanha em outubro de 1500.

  A tormenta ajudou Pinzón a fazer uma rápida travessia do Atlântico. Em apenas 13 dias venceu os 2.390 quilômetros que separam Cabo Verde do Brasil. Cabral demorou 30 dias para fazer o mesmo percurso. Na manhã de 26 de janeiro de 1500, quase dois meses antes de Cabral zarpar de Lisboa, Pinzón avistou um cabo rochoso, com a ponta alta e debruçado sobre o mar. É ‘‘a terra de mais luz da Terra’’, disse. Batizou a região de ‘‘Santa Maria de la Consolación’’. Os 150 marujos foram até a praia e ali escreveram seus nomes em pedras e árvores.

  (Há imensa polêmica sobre a localização deste ponto — veja no mapa ao lado, de 1519. Pesquisadores portugueses acham que o espanhol chegou ao Cabo Orange, na atual fronteira entre Brasil e Guiana Francesa. Os estudiosos espanhóis dão como certo que ‘‘Santa Maria de la Consolación’’ é o atual Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, onde hoje existe escola, placa e monumento a Pinzón. Já o brasileiro Max Justo Guedes, respeitado especialista em navegações portuguesas do século XVI, concluiu em 1975 que ‘‘Santa Maria de la Consolación’’ é a atual ponta de Mucuripe, a 10 quilômetros de Fortaleza.)

  No dia seguinte, a esquadra seguiu viagem pela costa até cruzar com a desembocadura de um rio, cuja beleza encantou Pinzón. Chamou o lugar de Formoso (Max Guedes acha que é o rio Curu, a 120 quilômetros de Fortaleza). Ali, os espanhóis inciaram cinco séculos de opressão de europeus sobre índios. Duelaram contra os nativos, os potiguar. ‘‘Aqueles homens belicosos cercam o bote, avançam temerariamente e agarram da margem o corpo dos escaleres. São trucidados à lança e à espada como ovelhas, porque estavam nus’’, escreveu Anghiera.

  Depois do conflito, Pinzón continuou até presenciar uma cena impressionante. Os marinheiros ouviram um barulho ensurdecedor, os barcos tremeram. Era a pororoca, na boca de um gigante. Era o Amazonas, que Pinzón batizou de ‘‘Santa Maria do Mar Doce’’. Anghiera escreveu que sua foz é cheia de ilhas ‘‘felizes pela fertilidade do solo e habitada de gente mansa e sociável’’. Eram os índios da ilha de Marajó. Pinzón é portanto o primeiro europeu a pisar no Brasil, a deslumbrar-se com o Amazonas e a manter contato com os índios.

  Não há polêmica entre os historiadores sobre a veracidade desses episódios. Todos concordam que Pinzón viu as terras brasileiras antes de Cabral. É unânime também a tese de que, se o espanhol tem o mérito na corrida da descoberta, a Espanha vacilou nas conseqüências da viagem: não ocupou a região e deixou para a viagem de Cabral a glória de ser a única com desdobramentos futuros. A colonização foi lusitana. Poderia ter sido espanhola. (ABM)

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