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BRASIL 500 ANOS: O VIGÉSIMO SEGUNDO DIA DA VIAGEM

Um nó de velocidade

Em pleno sermão dominical de frei Henrique de Coimbra, os ventos param de soprar. São as calmarias. Os instrumentos que o homem do século XV usava para navegar

Dia após dia, dia após dia, Ficamos estáticos, sem sopro ou movimento Como num barco pintado Sobre pintado oceano.
Samuel Taylor Coleridge,
The rhyme of the ancient mariner

Domingo, 29 de março de 1500. Frei Henrique de Coimbra pronunciava o sermão dominical quando os ventos pararam de soprar. A calmaria chegou, interrompeu a missa matinal no convés. A velocidade caiu para 2,5 quilômetros por hora ou apenas um nó, no dialeto dos marujos.

  Nó é o mais literal dos termos náuticos. Como não há um equipamento capaz de medir a relação entre a distância percorrida e o tempo gasto, os grumetes jogam ao mar uma corda cheia de nós amarrada a uma tábua.   A velocidade, então, é dada pelo número de nós da corda que correm sobre a popa do barco na meia hora em que se escoa a areia da ampulheta. Se ele está veloz, passam depressa; se está vagaroso, devagar. Como agora. E, pelo cálculo dos pilotos, não há chance de melhora nos próximos dias.

  Os barcos estão na latitude de quatro graus ao norte do Equador. É o começo da região das calmas equatoriais. São tão desesperadoras que os britânicos irão chamá-las de doldrums, desânimo.

  É exatamente esse o estado de ânimo dos tripulantes. Durante as calmarias, costuma acabar a água potável e aumenta o calor. ‘‘A impressão é de que se os marinheiros fossem caminhando sobre o mar, chegariam mais rápido’’, traduziu João de Barros nas Crônicas da Ásia, uma coletânea de relatos de várias viagens feitas na Carreira das Índias.

  Os portugueses do mar têm pressa e os da terra também — não suportam mais a dependência dos comerciantes venezianos. Portugal nasceu dependente. No século XI, a Península Ibérica chamava-se Hispânia (em latim, terras a oeste). À exceção das Astúrias, ao norte, toda a região era ocupada pelos árabes desde o ano 711 quando atravessaram o estreito de Gilbraltar e se espalharam pela Península. A partir 1037, os cristãos começaram a se reorganizar para expulsar os árabes. Foram várias guerras.

  Já no final do século XI, um nobre francês, Henrique de Borgonha se casou com D. Tereza, filha de Afonso VI, soberano de Castela. Como presente de casamento, o francês ganhou o condado de Portucale. Era o embrião de Portugal. Dom Henrique estendeu seus domínios para o sul, expulsando os mouros. Seu filho Afonso Henriques continuou a luta. Sonhava com a independência. Em 1139, venceu os mouros na batalha de Ourique. O povo o consagrou rei. Só o povo.

  Os monarcas de Castela demoraram ainda quatro anos, até 1143, para reconhecer a independência portuguesa. Reconheceram, mas nem tanto. Ainda guerrearam durante dois séculos. Foi só na famosa batalha de Aljubarrota, em 1383, que os portugueses se livraram dos castelhanos. Ainda são rivais. Hoje, mais do que nunca, brigam pelos direitos do mar.

Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

 

 






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