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O MUNDO NA
ÉPOCA
Lendo o céu no astrolábio
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| Obra do holandês Albert
Cuyp (1620-1691), autor de paisagens e marinhas: instrumentos para
conhecer o mar
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| Um quadrante: calculando
a latitude pelas estrelas
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| Uma bússola chinesa
do século XVI
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Dai-nos de novo o Astrolábio
e o Quadrante Velas ao vento venha a partida Há sempre um Bojador perto
e distante Nosso destino é navegar para diante Dobrar o cabo dobrar
a vida
Manuel Alegre
O astrolábio e o quadrante invocados pelo poeta contemporâneo
são alguns dos instrumentos de navegação que permitiram a seus antepassados
renascentistas cruzar o oceano e chegar à Índia e ao Brasil. Sem eles,
dificilmente os marinheiros ousariam arriscar-se por semanas e meses
a fio no alto mar, longe das referências de terra.
Onde só se vê céu e horizonte, é preciso recorrer
ao sol e às estrelas para achar o caminho. Mas a navegação que toma
os astros como referência é muito recente na Europa de 1500, quando
Cabral faz-se ao mar (técnicas rudimentares de leitura das estrelas
eram usadas por marinheiros árabes no Oceano Índico).
Apenas em 1484 — dezesseis anos antes da viagem de
Cabral — a junta de astrônomos do rei D. João II havia sugerido o cálculo
da latitude a partir da medida da altura do sol sobre o horizonte. O
sol, que furava a névoa e podia ser visto em qualquer lugar, tinha uma
evidente vantagem sobre as estrelas, que só podiam ser vistas num hemisfério.
[Uma explicação: latitude é a distância, medida em
graus, entre um ponto da superfície da Terra — um barco no mar, por
exemplo — e a linha do Equador. É uma distância na direção Norte-Sul,
portanto. Longitude é a distância entre esse mesmo ponto e o meridiano
de Greenwich, uma cidade da Inglaterra — meridiano é a linha que corta
a superfície da Terra passando pelos pólos. É medida na direção Leste-Oeste,
portanto. A duas distâncias, combinadas, formam as coordenadas geográficas,
que permitem localizar o ponto em questão na superfície terrestre. No
século XVI, só é possível calcular, aproximadamente, a latitude. A determinação
da longitude só será conhecida no século XVIII].
O astrolábio é o instrumento mais importante carregado
nos navios de Cabral. Um disco graduado e um ponteiro giratório, pivotado
no centro do disco, compõem esta maravilha tecnológica, inventada na
Idade Média para cálculos de astrologia e adaptada para uso naval no
século XV.
Suspendendo o disco na vertical por uma argola, e
girando o ponteiro até ele se alinhar com o sol, o piloto media a altura
do astro sobre o horizonte, ao meio-dia. Em seguida, relacionava o ângulo
lido com suas tábuas de declinação solar, que fixavam a altura do sol
para dias específicos, e encontrava a latitude do ponto em que fora
feita a leitura.
Estas tábuas de declinação eram, em si, uma demonstração
da complexa transmissão de conhecimentos no interior do que se poderia
chamar, hoje, de comunidade científica da Península Ibérica quatrocentista.
Astrônomos árabes, muito mais adiantados que os europeus na época, tinham
desenvolvido o cálculo das tabelas.
Mas foram dois judeus portugueses os responsáveis
pelo avanço lusitano na navegação astronômica. O primeiro, Abraão Zacuto,
foi cosmógrafo e professor de astronomia em Salamanca, na Espanha. Expulsos
os judeus pelos Reis Católicos em 1492, Zacuto tornou-se astrônomo real
na Lisboa de D. João II.
Zacuto usou o conhecimento astronômico dos árabes
para construir tabelas de declinação solar escritas em hebraico, que
seu discípulo José Vizinho, também judeu, adaptou e traduziu para o
latim no final do século XV. Elas foram publicadas em português perto
de 1500 — a data exata é incerta — como parte de um revolucionário tratado
chamado O Regimento do Astrolábio. É o primeiro manual prático de navegação
do Ocidente.
Bússolas, compassos e a rosa dos ventos também eram
usados pelos portugueses, que ainda lançavam mão do quadrante, um instrumento
mais simples para medir a altura das estrelas. Mas o astrolábio já se
impunha. A ponto de o mestre João Faras, cosmógrafo da frota de Cabral,
escrever a D. Manuel I depois da descoberta do Brasil: ‘‘Para o mar,
melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela;
e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum
instrumento’’.
Armando Mendes, da equipe do Correio
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