logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O VIGÉSIMO TERCEIRO DIA DA VIAGEM

As incômodas vestes do mar

Parada nas calmarias, a frota de Cabral carece de vento e se esvai no calor. As roupas são inadequadas. Cabral veste calça justa, boina preta e casaco de veludo com saiote drapeado. Os marujos vivem melhor: de calção e peito nu

Vestuário masculino típico do século XVI: porta-sexo

Segunda-feira, 30 de março de 1500. Os doze barcos da frota de Cabral se arrastam a menos de dois quilômetros por hora. Falta vento e sobra calor. Os homens sofrem com as altas temperaturas, muitos só trouxeram roupas de inverno. E a moda no barco é o desconforto.

  Os religiosos nunca tiram as batinas negras, feitas em grosso algodão. Cabral está vestido de comandante. Usa o gibão, acalorado casaco de veludo que cobre tórax e ancas. As pernas exibem sua silhueta. São cobertas por calças justíssimas, ultimo lançamento em Lisboa. Dizem os entendidos que a tendência neste início de século é libertar as pernas masculinas, antes cobertas pelas recatadas vestes medievais.

  Não só as pernas estão ao alcance dos olhos. Em dias de festa, os comandantes e alguns pilotos vestem sobre a calça um apertado macacão inteiriço, emendado entre as pernas por um cache-sexe (porta-sexo), geralmente dourado. Há quem prefira um saiote no lugar do macacão. É um saiote curto, um pouco abalonado, ou drapeado, que vai até o meio das coxas. Outro sinal de que a moda agora é vitrine de virilidade.

  O chapéu é outro adereço essencial. Há de vários tipos. Boinas são as mais comuns, Cabral está sempre com uma, preta. Neste particular, um chapéu entrou para a História. É o chapéu do infante dom Henrique, o pai das navegações. Grande, negro, com uma aba caída sobre o ombro. O modelo saiu de Portugal e chegou às boutiques de Florença.

  O que as roupas dos chefes conferem de poder tiram de conforto. Ao menos nesse capítulo os marujos têm mais sorte. Podem andar de bragas (calções) e peito nu. As bragas são imensas, lembram fraldas, presas à cintura com um rústico cordão. Quando usam camisas são sempre folgadas, amarradas com cadarços, chamados de atilhos — o botão ainda é raro em Portugal.

  Marinheiros e grumetes quase sempre estão com uma touca ou um lenço na cabeça. Andam descalços ou com uma sapatilha de pano. Os comandantes também usam sapatilha, mas são bordadas e enfeitadas com pedrarias (os portugueses adoram colocar ouro, penas, marfim e pedras preciosas sobre a roupa).

  Além dos despojados marujos, há um pequeno grupo de homens nesta frota com a roupa certa, para a ocasião certa. São os indianos, que, em 1499, foram levados para Portugal por Vasco da Gama e agora retornam às Índias a bordo da frota de Cabral. Estão sempre com túnicas brancas, de seda. Quando sujam, eles lavam na água do mar, costume que os europeus não têm. Resultado: o cheiro é outro complicador da moda a bordo.

  Em tempos de calmarias, há racionamento de água e excesso de suor. Lava-se pouco as roupas e, como são feitas com tecidos pesados, absorvem mais o mau cheiro. Quando o clima muda e chega a chuva, a situação não melhora. Ás aguas invadem as arcas de madeira onde as vestimentas ficam guardadas. Mofam e, de novo, exalam mau cheiro pelo ar.

(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.