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O MUNDO NA
ÉPOCA
Segredos de Estado
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| O mundo de Ptolomeu:
visão predominante na Europa ainda em 1493, data deste mapa alemão
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Remendo urgente
O mapa
de Cantino (acima) foi remendado na última hora para corrigir
a linha do Norte e do Nordeste brasileiros. Alguém colou, sobre
o primeiro desenho, um pedaço de pergaminho, refez o traçado da
costa e acrescentou novos nomes de acidentes geográficos. Duarte
Leite, historiador português, sugere que o remendo permitiu acrescentar
ao mapa informações colhidas pela segunda expedição enviada ao
Brasil, a de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, recém-chegada
a Lisboa em 1502. Se a interpretação é correta, mostra como foi
nervosa e urgente a missão de espionagem de Cantino.
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Lisboa, 1502. A capital portuguesa é o centro das grandes
navegações. Pilotos, astrônomos, comerciantes, marinheiros e aventureiros
de todo tipo acorrem à velha cidade em busca de trabalho, fortuna e
glória.
Chegam também os espiões, atrás dos segredos que
as naus e caravelas carregam ao voltar das viagens de descobrimento.
Alberto Cantino é um deles. Está a serviço de Hércule de Este, duque
de Ferrara, um grão-senhor da península itálica disposto a conseguir,
por qualquer meio, um mapa do Novo Mundo.
Cantino cumpriu a missão. Supõe-se que tenha subornado
um cartógrafo da Casa das Índias — a agência estatal que administrava
as navegações — para lhe fazer uma cópia das cartas-padrão guardadas
nos arquivos reais portugueses. Pagou doze ducados de ouro, quase uma
fortuna, mas o precioso mapa de pergaminho (reproduzido nesta página)
chegou à corte do duque, seu patrão.
Voltamos a esta história, já referida no 15º dia
da viagem, porque o mapa de Cantino é a mais antiga, entre as cartas
geográficas renascentistas que chegaram até nós, a mostrar a recém-descoberta
costa brasileira.
Os mapas portugueses dos quais ele é cópia perderam-se
no tempo ou foram destruídos no terremoto de Lisboa, em 1755 (o exemplar
contrabandeado de Portugal para Ferrara tem uma história quase tão atribulada
quanto os originais; servia de cortina numa salsicharia quando foi encontrada
e recolhida à Biblioteca Estense de Modena, na Itália, onde está guardada).
O traçado do Brasil ainda é incorreto no mapa de
Cantino, mas está lá, registrando a nova terra portuguesa. E mais: a
carta é também o mais antigo planisfério — representação do planeta
numa superfície plana — a incorporar uma visão do mundo que podemos
chamar de moderna. Mostra um contorno espantosamente correto da África
e desenha a Índia de maneira mais fiel do que outros mapas da época.
É mais uma revolução num século cheio delas. Antes
da era das grandes navegações, as cartas geográficas podiam ser de dois
tipos: havia, de um lado, mapas-mundi desenhados por eruditos que mesclavam
interpretações religiosas com fantásticos relatos de viajantes; de outro,
estavam as cartas práticas de navegação, os portulanos.
Os mapas eruditos procuravam dar forma a visões especulativas
do mundo. Não guardavam nenhuma relação com a exploração geográfica
sistemática, não serviam de nada à navegação (nem mereciam um esforço
de espionagem). Um dos mais conhecidos era o Imago Mundi, uma compilação
de fontes latinas, gregas e árabes que Cristóvão Colombo chegou a estudar
(Colombo, a propósito, viveu em Lisboa desenhando cartas náuticas para
se sustentar entre 1477 e 1478).
A mais influente concepção de mundo era a de Ptolomeu,
geógrafo egípcio do século II educado na cultura greco-romana. A geografia
de Ptolomeu tinha sido preservada pelos árabes e divulgada no Ocidente
a partir de 1410, o mesmo ano em que um cardeal da Igreja escreveu o
Imago Mundi. Indicava com razoável precisão o desenho do império romano
e especulava sobre o resto do mundo.
Já os modestos portulanos se contentavam em resolver
problemas concretos: como ir de um porto a outro do Mediterrâneo, como
entrar e sair de uma baía sem encalhar ou arrebentar o barco em arrecifes.
Eram mapas rústicos, mas muito bonitos, desenhados em peles de animais
para resistir à corrosão da água salgada. Mas só funcionavam em distâncias
curtas. Não serviam para mostrar como era o conjunto do planeta.
Durante toda a Idade Média, os mundos da especulação
erudita e da navegação prática mal se falaram. Os portugueses e espanhóis
mudaram tudo ao se aventurar nos oceanos. Cada barco que voltava, cada
terra nova descoberta representava um golpe nas concepções de Ptolomeu
e da Idade Média.
Assim, no começo do século XVI, um mapa-mundi português
já tinha valor prático. Podia justificar a missão de espionagem de Cantino.
Cem anos mais tarde, no começo do século XVII, os mares não são mais
tenebrosos. Com exceção da Austrália e das calotas polares, os litorais
da Terra estão quase todos traçados, e um mapa-mundi dessa época não
difere substancialmente dos que usamos hoje (AM).
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