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BRASIL 500
ANOS: O VIGÉSIMO QUINTO DIA DA VIAGEM
Nu’a mão a espada, noutra a pena
Religiosos proíbem livros profanos e marujos desobedecem.
No porão, devoram novelas de cavalaria, como a do rei Arthur e os cavaleiros
da távola redonda
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| Obra renascentista
de autor desconhecido: novos horizontes econômicos e culturais na
Europa fizeram crescer o hábito da leitura
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| João de Barros - Capa
do livro Décadas da Ásia, crônica sobre as viagens na Carreira das
Índias.
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| Gil Vicente - Capa
das obras completas, escritas pelo pai do teatro português
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Quarta-feira, 1º de abril de 1500. Para vencer a entediante
calmaria que há dois dias paralisa esta frota, os marinheiros tentam
se divertir. Não conseguem, os padres não deixam. Proíbem os jogos e
os livros. É uma pena.
Estes anos são prósperos na literatura européia.
Há livros e autores novos, a leitura começa a virar um hábito, diminui
o número de analfabetos. O teatro nasce em Portugal com Gil Vicente.
Os padres perderam o privilégio da erudição. Os livros ficavam trancados
nos mosteiros. Agora estão nas ruas. E, escondidos, nos barcos.
Os padres só permitem literatura religiosa, livros
sacros, cheios de insossos personagens. Os marinheiros não gostam. Correm
para o porão, e ali, à luz de tochas, os poucos alfabetizados lêem alto,
para os companheiros, as animadas novelas de cavalaria recheadas de
heróis aventureiros e de caráter duvidoso.
Adoram o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda.
Vibram com as estrepolias de Galahad, homem que duela com monstros para
encontrar o Santo Graal, o cálice sagrado onde teria sido recolhido
o sangue de Cristo durante o martírio. É óbvio que os padres acham que
é coisa profana.
O combate do profano com o sagrado acontece em todas
as frotas que deixam Lisboa. ‘‘É grandíssimo [a bordo dos barcos] o
número de livros de cavalaria e desonestos, que eram uma armadilha do
demônio, em que os alucinava e enlouquecia, com grande dano de suas
almas, em torpes pensamentos e práticas’’, escreverá o padre Antonio
de Quadros, no ano de 1565, em carta aos seus superiores da Companhia
de Jesus.
Esses romances de cavalaria, considerados textos
de segunda classe, apelativos e popularescos, pelos intelectuais franceses
e lisboetas, não deixam de ter estilo. Ludovico Ariosto, italiano, nascido
em 1574, é o melhor exemplo de autor popular desta época.
Em sua obra Orlando Furioso, Ariosto pôs no papel,
sempre com estrofes de oito versos, as lendas de Carlos Magno e de seus
valorosos cavaleiros. Fala de amor, amizade, trapalhadas cotidianas
que se alternam em batalhas e viagens para lugares fabulosos povoados
de monstros, gigantes, fadas e magos. O povo e a corte adoram. A Igreja
detesta.
A única concessão religiosa é para dois estilos que
começam a aparecer em Portugal: a literatura de costumes e a de viagens.
Descrever as difíceis jornadas marítimas é algo com a cara destes tempos
e enorme importância histórica.
Também é decisivo para a formação do idioma nacional
— passa-se a escrever em português e não mais em latim, até pouco tempo
atrás a língua da Europa culta. Os relatos do mar são o ganha-pão de
gente como João de Barros, atual cronista real de dom Manoel. É o mesmo
que, no dia 8 de março, descreveu o embarque desta frota.
A literatura de costumes é mais antiga. Nasceu no
início do século XV, quando os reis portugueses, influenciados pelo
Renascimento italiano, decidiram que os lusitanos precisavam entrar
na era do saber. Dom João I escreveu então o Livro da Montaria.
Seu filho, dom Duarte, seguiu o exemplo e publicou
o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela. E praticamente criou
a historiografia portuguesa, ao encarregar Fernão Lopes, em 1434, de
‘‘poer em cronica as histórias dos reis que antigamente em Portugal
foram’’.
Mas aquele momento em que Portugal mergulhou sobre
o mar e se debruçou sobre os livros durou pouco. Já no fim do século
XV, o rei dom Manoel I não tinha tanto apego pela cultura escrita. O
maior escritor português da Era das Navegações, Luis de Camões — cujo
lema de vida é o título deste texto — irá se lamentar do perfil rústico
dos navegadores e da falta do cuidado de Sua Majestade com as letras:
Dá a terra Lusitana Cipiões,
Césares, Alexandres, e dá Augustos;
Mas não lhes dá contudo aqueles deões,
cuja falta os faz duros e robustos
Luís de Camões, no Canto V d’Os Lusíadas
(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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