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O MUNDO NA
ÉPOCA
Nas águas do Renascimento
Enquanto os conquistadores ibéricos buscavam novos
mundos por mares desconhecidos, os italianos navegavam com desenvoltura
pelos domínios das artes e da cultura. O advento da Renascença a partir
do século XIV dá início à hegemonia de um paradigma artístico e filosófico
que se manterá por pelo menos mais duzentos anos em todo o continente.
A Idade Média acabou. A Europa atravessou o conturbado período das ‘‘trevas’’
e começa agora um período de excelência no terreno das artes e do conhecimento
— poesia, pintura, filosofia, arquitetura.
Três escritores definem os novos rumos do pensamento
europeu: Petrarca, Dante e Boccaccio. Um dos maiores representantes
do Trecento (como é conhecido o século XIV, dos anos 1300, na Itália),
Petrarca definiu a tese mais sólida do Renascimento: a sociedade só
poderia superar a letargia da Idade Média e renovar-se a partir dos
estudos da cultura clássica.
É impossível considerar a revolução literária na
Europa no século XV sem levar em conta os avanços tecnológicos da época
— em especial o desenvolvimento da imprensa, com a invenção dos tipos
móveis pelo alemão Johann Gutenberg. Os textos manuscritos, até então
reproduzidos um a um pelos famosos copistas dos mosteiros, passam a
ser impressos. Em poucas dezenas de anos, as publicações tornam-se cada
vez mais comuns. Em 1500, o continente europeu já contava com seis milhões
de livros em circulação. A popularização dos livros modifica radicalmente
o hábito da leitura.
Publicações até então restritas aos eruditos e à
elite e idéias que circulavam apenas em sermões públicos dão lugar à
descoberta individual do conhecimento e das escrituras. O contato com
os livros entra para o ambiente domiciliar. É a chamada leitura intelectual.
Em silêncio.
O Renascimento na literatura, baseado nos preceitos
do Humanismo, atinge o auge no século XVI. É do Cinquecento que nasce
a obra que define, por exemplo, o pensamento político moderno: O Príncipe,
do florentino Maquiavel. A valorização do indivíduo encontra expressão
fundamental no pensamento de Montaigne, em seus Ensaios.
A renovação estética nascida na península itálica
tem influência marcante na Espanha e em Portugal. As primeiras traduções
em catalão de A Divina Comédia surgem no século XV. Juan de Mena e Marquês
de Santillana são alguns dos escritores que se inspiram nos versos de
Dante e Boccaccio.
Por outro lado, o Renascimento, com sua ênfase no
secular em lugar da religiosidade medieval, fornece o arcabouço para
a revalorização das literaturas nacionais. Os sonetos de Petrarca inspiram
poetas franceses, ingleses e espanhóis.
O francês Rabelais, com a história dos gigantes Gargântua
e Pantagruel, formula uma crítica irônica dos temas religiosos, intelectuais
e literários de seu tempo. Cervantes, por sua vez, faz um retrato do
homem hispânico em Dom Quixote. O patriotismo está também em Os Lusíadas,
de Camões. A história do navegador Vasco da Gama narrada em verso certamente
faz parte da mais ilustre biblioteca renascentista. Por fim, o insuperável
William Shakespeare, que, escrevendo em inglês, utilizou as formas do
Classicismo — em especial a tragédia — para mergulhar nas profundezas
do caráter humano.
(*) Carlos Alexandre, da equipe do Correio.
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