|
BRASIL 500
ANOS: O VIGÉSIMO SEXTO DIA DA VIAGEM
Náufragos do Desejo
Não há uma única mulher nos barcos.
Os marujos sofrem de desejo, passam mais de oito meses sem sexo. No
Renascimento, prazer e pecado convivem nas alcovas e ruas
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal !
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram !
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar !
Trecho de O Mar Português, de Fernando Pessoa, no livro Mensagem
Quinta-feira, 2 de abril de 1500. Já são quatro dias sem
ventos, a calmaria faz dos homens prisioneiros do mar. Sofrem de saudade,
seus corpos estão tão cansados quanto sedentos. Não
há uma única mulher nestes 12 navios; a lei não
permite, a lenda também.
Em Lisboa, existe uma crença de que moça no
barco é naufrágio certo. Resultado: os marujos acabam
naufragando de desejo. Passam mais de oito meses sem sexo, as viagens
pelo Atlântico são longas. Alguns marinheiros não
resistem e abusam dos meninos grumetes.
Desde que começou a história das grandes navegações,
as mulheres são as personagens do adeus. Ficam no porto vestidas
de negro, com lenço branco nas mãos. Seus homens partem
para desbravar o mundo, elas passam os dias entre a solidão e
o adultério.
Em 1509, o teatrólogo Gil Vicente, pai do teatro
português, deixará a corte perplexa com a peça Auto
da Índia. Com ironia e sarcasmo, Vicente mostra o estado de ânimo
e de corpo das portuguesas. Estão traindo porque
sentem-se abandonadas pelos gloriosos maridos viajantes.
Mas, como em todas as épocas, há agora mulheres
que não querem a sina de donzelas. Desejam se aventurar pelo
mar, conhecer terras longínquas. Travestidas de homens, entram
nos barcos.
Será o caso de Antonia Rodrigues, moça nascida
em Aveiro, que nos primeiros anos do século XVI embarcará
para as Índias vestida de grumete. Fará suas tarefas de
modo exemplar e ninguém conhecerá sua identidade.
Mais heróica será a viagem de Manuela Coelho.
No ano de 1512, subirá ao navio do capitão Henrique Macedo.
No meio do percurso, o barco será atacado por três galeotas
de mouros. Manuela vai liderar o revanche dos marinheiros portugueses,
conseguirá afugentar os árabes e, ainda, pedirá
ao comandante para persegui-los. Em vão. O comandante se acovardará.
Manuela, indignada, tirará as roupas diante dos perplexos colegas.
Macedo entrará para a história como fraco
e covarde e Manuela como varonil, destemida
e valorosa.
Os lusitanos vão demorar mais de um século
para demolir a teoria de que mulheres nos barcos transformariam as frotas
em orgia flutuante. Só no meio do século XVI, as mulheres
serão admitidas a bordo. Admitidas mais ou menos. Os poucos prazeres
dessas terríveis jornadas lhes serão vetados.
As damas pudicas viajarão reclusas nas cabines, sempre
ao lado de seus maridos ou parentes. Escravas servirão aos seus
senhores. E, pecadoras, condenadas ao degredo, pela Santa Inquisição,
por serem feiticeiras, judias, ou lascivas, embarcarão como bichos,
presas e submetidas ao deboche e aos castigos.
Enquanto este tempo não chega, os marinheiros de
Cabral ficam com a saudade no corpo e na alma. E a saudade...
é um sentido do coração que vem da sensualidade
e não da razão, como escreveu o rei dom Duarte,
no Leal Conselheiro, um das poucas leituras permitidas aos marinheiros
desta frota. Resta-lhes o consolo dos padres: Os inimigos
da alma são três: o mundo, a carne e o diabo,
prega a Cartinha Para Leer com as Douctrinas da Prudência, de
1534.
Ana Beatriz Magno,
da equipe do Correio.
|