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O MUNDO NA
ÉPOCA
Salvos pelo prazer
E
A ausência de mulheres na frota de Cabral é
sintoma do divórcio entre homem e mulher. Nesta época,
com a Inquisição, as mulheres são o demônio.
São bruxas, lascivas, carregam o mal e copulam com o diabo. Os
homens as temem, distanciam-se delas, personificações
do pecado. Nas casas, elas ficam nos quartos de dormir, longe do convívio
social. Como que aprisionadas, vivem a espiar pelas frestas das portas
e dar curso a intrigas e fofocas.
É preciso, no entanto, não confundir essa
imagem intolerante da mulher com o sexo. Ao contrário do que
se imagina, na época de Cabral ainda há alguma franqueza
no sexo. Os segredos não são a regra. As palavras e os
gestos são mais livres. O discurso sobre o sexo não é
censurado. A revolução da imprensa que se está
vivendo também permite o desenvolvimento da literatura obscena.
Até as relações ilícitas a prostituição,
o adultério são mais toleradas neste tempo em que
se julga que a idade ideal para casar-se, homem ou mulher, é
14 anos.
No mundo de Cabral, o quarto de dormir está mudando.
Antes feito apenas de um estreito leito, agora o quarto se sofistica.
Os leitos ficam maiores, um ou dois degraus acima do chão, as
mulheres os perfumam com odores de almíscar, âmbar, açafrão.
Antes de dormir, a higiene consiste em lavar os pés. Surge a
roupa de baixo, o que melhora tanto a higiene que reduz a incidência
de lepra. Mas dormir vestido, o homem ou a mulher, é uma ofensa
ao parceiro. Dorme-se nu. Nem por isso deixa de existir o pudor no leito:
agir com a esposa como se age com a amante é um escândalo.
Como os casamentos entre os nobres são resultado
de arranjos diplomáticos e políticos, o sexo é
um assunto público. Em dezembro de 1498, se encerrou um rumoroso
processo no qual o rei Luís XII, da França, quis anular
seu casamento com Joana. A disputa: o casamento foi ou não consumado?
Tiveram ou não relações sexuais? Joana alega que
sim, o rei diz que não, em função das dificuldades
físicas da rainha, que era corcunda, coxa, tinha o tórax
deformado, um quadril perto do fêmur e uma deformidade vaginal.
Fala-se do caso publicamente. (O rei conseguiu anular o casamento. Um
mês depois casou-se com sua grande paixão, Ana de Bretanha.
Joana se recolheu à clausura e dedicou-se aos pobres. Será
canonizada como santa em 1951.)
Sendo os casamentos arranjados, reis e papas conferem
até pessoalmente os ardores das núpcias. É
o que acontece com Catarina de Médicis e o príncipe Henrique.
O pai do príncipe, Francisco I, assistiu à noite nupcial
até ouvir o grito de Catarina, prova de que o casamento se consumara.
O papa Clemente VII, desconfiado de que o rei mentira, vai verificar
pessoalmente com o olho e com o dedo.
Nesta época, em que não há contraceptivo,
evitam-se filhos através do coito interrompido e da masturbação
mútua. O papa Silvestre, em 1545, vai condenar o coito interrompido
e a abstinência sexual para evitar a gravidez. Mas existe um debate,
nos círculos religiosos e leigos: sexo é só para
procriar ou também é prazer? Só em 1602 um padre
jesuíta vai reabilitar o prazer com o conceito de amor conjugal.
Mas entre os séculos XVIII e XIX, a sexualidade se retrairá,
sairá da esfera pública para enclausurar-se no privado.
Vai virar vergonha, segredo. (Michel Foucault dirá que isso se
deve ao desenvolvimento do capitalismo e da ordem burguesa, para permitir
que se trabalhe intensamente sem dispersar-se no prazer.)
André Petry,
da equipe do Correio
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