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BRASIL 500
ANOS: O VIGÉSIMO SÉTIMO DIA DA VIAGEM
Capitão do fim
As calmarias deixam a tripulação impaciente
e irritam até Bartolomeu Dias, o navegador mais calejado por
tragédias no mar que, nesta viagem, encontrará a morte
Sexta-feira,
3 de abril de 1500. Quase paralisada pelas calmarias que capturaram
esta frota há cinco dias, a tripulação está
tensa. Até o mais tarimbado navegador, o português Bartolomeu
Dias se impacienta com a lentidão. A falta de ventos deixa as
velas frouxas e faz os barcos navegarem a 2,5 quilômetros por
hora. Bartolomeu, capitão da caravela redonda da segunda divisão
desta esquadra, conhece os perigos das calmarias e das tempestades.
Está no mar desde menino, e nele morrerá.
Em agosto de 1487, por ordem de dom João II, Bartolomeu
Dias saiu de Lisboa no comando de duas caravelas e uma nau de mantimentos,
usada pela primeira vez na história das navegações.
A missão era quase impossível: deveria vencer 30 anos
de frustradas expedições portuguesas e encontrar a passagem
entre o Atlântico e o Índico.
Dom João achava que Bartolomeu tinha o perfil ideal
para cumprir a tarefa. Era funcionário da fortaleza de São
Jorge da Mina, na África, e sabia como ninguém navegar
nas águas difíceis do Golfo da Guiné. Ali, há
calmarias semelhantes a estas que os homens de Cabral agora enfrentam.
Bartolomeu enfrentou-as e venceu-as.
Em outubro, a frota alcançou o Cabo Cross, último
ponto conhecido pelos europeus na África. A partir dali, no litoral
do que mais tarde será a Namíbia, a costa africana parecia
um deserto. O lugar é tão estranho que anos depois se
chamará Costa do Esqueleto, por conta dos recorrentes naufrágios
que acontecerão ali.
Bartolomeu seguiu viajando até que, em dezembro,
uma terrível tempestade despencou sobre seus barcos. O mar ficou
alto, afastou os navios da costa e os lançou para o sul. Choveu
durante 14 dias seguidos, os marinheiros não conseguiam dominar
as velas e, segundo os relatos do cronista João de Barros, como
os barcos eram pequenos e os mares frios, deram-se todos por mortos.
Não estavam.
Depois de duas semanas, a tempestade passou, e Bartolomeu,
auxiliado pelo piloto Pero de Alenquer, virou o leme para o leste, mas
não viu terra. Andou mais 800 quilômetros para o norte
até que enxergou imensas montanhas. Sem perceber, realizara sua
missão impossível: havia dobrado a África. Estava
desmentida a teoria do egípcio Ptolomeu de que os mares não
se comunicavam. Bartolomeu Dias abria as portas para as Índias.
Teimoso, resolveu costear aquele litoral. Já no dia
3 de fevereiro de 1488, atracou numa imensa baía que mais tarde
se chamará Mossel Bay, a 370 quilômetros da futura Cidade
do Cabo, na África do Sul. O navegador seguiu mais 500 quilômetros,
sonhava chegar às Índias, mas foi impedido por seus próprios
subordinados. Querendo voltar, se amotinaram. Bartolomeu rendeu-se.
Deu meia volta e passou pela última vez na ponta da África.
Chamou-a de Cabo das Tormentas, nome que mais tarde o rei trocará
para Cabo da Boa Esperança. Ali, Bartolomeu chorou.
Em dezembro de 1488, 16 meses e 17 dias depois da partida,
Bartolomeu e seus homens retornaram a Portugal. Passada mais de uma
década, o navegador continuava sonhando em chegar às Índias.
Foi escalado para participar da viagem de Vasco da Gama em 1497, mas
a ordem do rei era de que parasse na Guiné para cuidar da feitoria
portuguesa. Bartolomeu obedeceu.
Dois anos mais tarde, achou que chegara a sua vez. O rei
o convocou para subir aos barcos de Cabral que irão até
as Índias. Mas, outra vez, Sua Majestade o impediu de vê-las.
Dom Manoel ordenou-lhe que ficasse no meio do caminho, em Sófala,
na costa oriental da África. Nem isso Bartolomeu conseguirá.
No dia 23 de maio de 1500, será derrotado num golpe de vingança
dos mares, no mesmo ponto que vencera doze anos antes. Nas águas
de sua vitória, que chamou de Cabo das Tormentas, encontrará
sua última derrota, que a história chamará de Cabo
da Boa Esperança. Uma tempestade enorme açoitará
seu barco e o mar, das tormentas e esperanças, será seu
túmulo. Jaz aqui, na pequena praia extrema, o Capitão
do Fim, escreverá, quatro séculos depois, o poeta
Fernando Pessoa.
Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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