|
O MUNDO NA
ÉPOCA
O espetáculo público
da morte
A morte está por toda a
parte, presente ao cotidiano de todos os europeus: sejam nobres, operários
ou camponeses; sejam velhos ou crianças. A Europa de Cabral acabou
de sair da era das pestes, cujo período mais dramático
estendeu-se até 1430, multiplicou as mortes precoces e penosas,
e elevou a mortalidade dos bebês. Mas ainda agora o que mais mata
são as epidemias e a fome, um desafio que só será
parcialmente superado uns dois séculos depois com o desenvolvimento
da medicina e da agricultura. E a morte merece todo respeito.
Ninguém morre sozinho. Morre-se em casa, no quarto
de dormir, cercado por parentes, amigos, vizinhos. Ali, onde sofrem
e agonizam, os doentes são velados sem descanso, noite e dia,
num espetáculo ao mesmo tempo doméstico e público.
À frente de todos, o moribundo confessa os pecados. Em seguida,
dão-se o testamento, o viático, a extrema-unção,
as orações. Depois, o cortejo fúnebre, o corpo
exposto na igreja, o enterro num cemitério ou, no caso das famílias
ricas, numa necrópole privada, construída como um anexo
da casa.
O ritual da última despedida reserva um papel especial
às mulheres. Enquanto os homens ficam do lado de fora da igreja
onde o corpo está exposto e não libertam lágrimas
em público, as mulheres fazem o contrário: cercam o defunto,
choram todas as lágrimas que o mundo lhes deu, soltam gritos
desesperados, escancaram seu desconsolo. É preciso que seja assim.
A encenação fúnebre das mulheres é um sinal
do sofrimento de toda a família do morto. Dispensá-la
significa indiferença dos familiares, uma desonra ao defunto.
Nem sempre os mortos são enterrados imediatamente.
Às vezes ficam insepultos por dias, semanas, meses até,
como se fazia no Egito antigo. E assim, antes da cova, os mortos participam
dos acontecimentos da família. Nas necrópoles de casa,
celebra-se não apenas o primeiro aniversário da morte,
mas também o aniversário regular. Nesse dia, a família
banqueteia-se com iguarias e vinhos ao pé do morto, com receio
de desagradá-lo e, quem sabe, espreitá-lo voltando à
noite, feito um fantasma despeitado, para exigir mais cuidados e mais
respeito. Às vezes, o caixão até serve de mesa
para o pão e o vinho.
A cerimônia fúnebre, sendo pública e
não privada, era ao mesmo tempo uma cerimônia política.
As autoridades, ciosas de evitar ou estimular a ascensão política
deste ou daquele sobrenome, regulamentavam todos os detalhes dos enterros:
a quantidade de convivas, os horários, o percurso do cortejo,
os limites mais adequados para o espetáculo de exibição
do sofrimento. Nada parecido com que acontece hoje, quando, dizem os
antropólogos, a morte se tornou tão mais massiva, devido
às guerras crescentemente sangrentas, que o ritual da última
despedida precisou ser resumido, abreviado.
André Petry,
da equipe do Correio
.
|