logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

O espetáculo público da morte

 

      A morte está por toda a parte, presente ao cotidiano de todos os europeus: sejam nobres, operários ou camponeses; sejam velhos ou crianças. A Europa de Cabral acabou de sair da era das pestes, cujo período mais dramático estendeu-se até 1430, multiplicou as mortes precoces e penosas, e elevou a mortalidade dos bebês. Mas ainda agora o que mais mata são as epidemias e a fome, um desafio que só será parcialmente superado uns dois séculos depois com o desenvolvimento da medicina e da agricultura. E a morte merece todo respeito.
  Ninguém morre sozinho. Morre-se em casa, no quarto de dormir, cercado por parentes, amigos, vizinhos. Ali, onde sofrem e agonizam, os doentes são velados sem descanso, noite e dia, num espetáculo ao mesmo tempo doméstico e público. À frente de todos, o moribundo confessa os pecados. Em seguida, dão-se o testamento, o viático, a extrema-unção, as orações. Depois, o cortejo fúnebre, o corpo exposto na igreja, o enterro num cemitério ou, no caso das famílias ricas, numa necrópole privada, construída como um anexo da casa.
  O ritual da última despedida reserva um papel especial às mulheres. Enquanto os homens ficam do lado de fora da igreja onde o corpo está exposto e não libertam lágrimas em público, as mulheres fazem o contrário: cercam o defunto, choram todas as lágrimas que o mundo lhes deu, soltam gritos desesperados, escancaram seu desconsolo. É preciso que seja assim. A encenação fúnebre das mulheres é um sinal do sofrimento de toda a família do morto. Dispensá-la significa indiferença dos familiares, uma desonra ao defunto.
  Nem sempre os mortos são enterrados imediatamente. Às vezes ficam insepultos por dias, semanas, meses até, como se fazia no Egito antigo. E assim, antes da cova, os mortos participam dos acontecimentos da família. Nas necrópoles de casa, celebra-se não apenas o primeiro aniversário da morte, mas também o aniversário regular. Nesse dia, a família banqueteia-se com iguarias e vinhos ao pé do morto, com receio de desagradá-lo e, quem sabe, espreitá-lo voltando à noite, feito um fantasma despeitado, para exigir mais cuidados e mais respeito. Às vezes, o caixão até serve de mesa para o pão e o vinho.
  A cerimônia fúnebre, sendo pública e não privada, era ao mesmo tempo uma cerimônia política. As autoridades, ciosas de evitar ou estimular a ascensão política deste ou daquele sobrenome, regulamentavam todos os detalhes dos enterros: a quantidade de convivas, os horários, o percurso do cortejo, os limites mais adequados para o espetáculo de exibição do sofrimento. Nada parecido com que acontece hoje, quando, dizem os antropólogos, a morte se tornou tão mais massiva, devido às guerras crescentemente sangrentas, que o ritual da última despedida precisou ser resumido, abreviado.

André Petry,
da equipe do Correio

.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.