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BRASIL 500
ANOS: O VIGÉSIMO OITAVO DIA DA VIAGEM
Uma canada de água para beber e cozinhar
Os homens de Cabral estão com sede, economizam vinho
e água potável, lavam legumes e verduras no mar. No Renascimento surge
o alambique e revoluciona a arte de beber
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| Baco, tela do italiano
Caravaggio (1573-1610): celebração o vinho, bebida predileta da
corte
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Sábado, 4 de abril de 1500. Na alvorada, o mar é cor
de chumbo; à noite, as estrelas e a lua incendeiam a água, deixando-a
com a cor de fogo. Ao meio-dia, exala vapores salinos que encarquilham
a pele dos navegantes. O oceano é uma maldição. É água apenas em sua
fluidez.
Os marinheiros da frota de Cabral estão deslizando
a dois quilômetros por hora sobre um pântano insalubre. Morre-se de
sede no meio do mar.
As viagens de descobrimento são longas e o fim incerto.
E a sede um fantasma tão presente — mais real, claro — quanto os abismos
oceânicos.
Invariavelmente falta água potável e verdadeiros
ritos de consumo se impõem para que ela não acabe durante o incerto
percurso. Os legumes e a carne são fervidos com água do mar.
Em tempos como os de agora, regidos pelas calmas
equatoriais, a escassez é tamanha que desmonta até com os privilégios
da hierarquia militar. Mesmo Pedro Álvares Cabral e os outros 11 capitães
das nove naus e três caravelas não podem consumir mais água do que os
outros tripulantes. É pouca para todos.
Cada homem a bordo tem direito a uma canada (1,4
litro) por dia de água doce para beber e cozinhar se assim deseja. A
mesma quantidade de vinho é distribuída. As pipas são vigiadas pelo
dispenseiro e a bebida oferecida uma única vez ao dia.
Quando as chuvas desaparecem a ração de água é reduzida
a uma quantidade que caiba numa casca de ovo, um medidor trágico destes
tempos secos em meio ao mar.
A água doce é armazenada em pipas (estima-se que
cada nau da frota de Cabral tenha sido embarcada com 200 pipas) de madeira.
Mas ao longo da viagem, as fissuras nos tonéis de madeira, o contato
com a água do mar e o armazenamento impróprio deixam-na podre. Não raro
provoca infecções e diarréias.
Um despacho real do século XVI, procurando contornar
esse problema, obrigará a perfumá-la para as viagens mais longas. Ou
seja: os marinheiros beberão muitas vezes uma lavanda diluída que tem
o efeito colateral de provocar ainda mais sede.
Acontece de um navio permanecer vários dias sem uma
gota de água e só ter salvação se encontrasse terra, ilha ou uma chuvada.
O aviso de chuva é a senha para que a tripulação tome seus postos e,
numa agitação semelhante àquela que antecede as batalhas, passe a recolher
a água do céu.
No mar as chuvas são uma benção demoníaca. Na tórrida
zona entre os trópicos, tem fama de ser pestilenta. Imagina-se que se
ela cair sobre a carne, pequena pústula se formará, levando a vítima
a morte por infecção.
O reabastecimento costuma ser feito na costa africana
ou nos Açores. Marinheiros, em barcos a remo, penetram até 100 quilômetros
pelo rio Geba (mais tarde Guiné Bissau) para conseguir água. Nestes
28 dias de viagem, Cabral preferiu não atracar para pegar água.
A água é uma especiaria para quem se aventura no
oceano. Narradores da corte falam de um navegador que, em 1475, depois
de adentrar no Senegal num bote em busca de água, encheu dois barris
e os levou para o infante dom Henrique em Lisboa. ‘‘Não sei se Alexandre,
que foi um dos monarcas do mundo, bebeu em seus dias água que de tão
longe lhe fosse trazida’’, dizem relatos da época.
* Luis Alberto Weber, da equipe do Correio.
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