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O MUNDO NA
ÉPOCA
A revolução do alambique
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| Gente do Mar, de André
Reinoso (1610-1641): marujos com sede
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O Renascimento guarda uma invenção que é um primeiro
protótipo das máquinas da revolução industrial que imprimiriam séculos
depois força ao capitalismo: o alambique.
Com esse rústico aparelho, as bebidas alcoólicas
passam a ser produzidas em grande escala (longe dos caldeirões dos boticários)
e aproveitando-se das vocações geográficas de cada região.
É nos séculos XV e XVI que surgem as primeiras vodcas
polonesas à base de batatas, o uísque escocês de malte, a bagaceira
italiana feita a partir do bagaço das uvas. Inventa-se também o rum,
o gim e o calvados. O mundo descobre a delícia e a multiplicidade dos
destilados.
O alambique, embora uma criação árabe, dá à Europa
a supremacia mundial na produção de álcool. Na escala da gastronomia,
é equivalente a criação do Windows por Bill Gates na década passada.
Transforma produção e consumo.
A tecnologia de produção aliada a ilustração renascentista
dessacraliza o álcool, retira-o da estante dos medicamentos e o coloca
no armário dos prazeres.
Essa mudança de patamar não ocorre, porém, às custas
da perda das supostas propriedades médicas da bebida. Consumidores da
época falam dos heréticos milagres da aguardente.
A bula não escrita do álcool relata a cura de cólicas,
da paralisia e até na imunização contra a peste negra. Mas as propriedades
medicinais vão se perder na Idade Média. Beber torna-se um prazer. E
um negócio.
Em 1514 o monarca Luís XII concede à corporação dos
vinagreiros o privilégio de destilar bebidas. Secularizava o remédio,
retirando o monopólio do seu fabrico dos alquimistas e estendendo aos
comerciantes.
Até então, na maior parte do continente, os licores
à base da decocção de ervas eram de fabricação exclusiva de boticários
e farmacêuticos.
A popularização da produção dos destilados altera
profundamente a economia renascentista. A troca de bebidas entre as
cidades e reinos se intensifica e as beberagens passam a figurar nos
extratos fiscais e aduaneiros.
Mas são as bebidas fermentadas, vinho, cerveja e
sidra, que atiçam a imaginação, o paladar e a economia europeus. O vinho
é o combustível do comércio do continente.
O claret (antiga denominação do vinho produzido hoje
em Bordeaux) aproxima produtores franceses dos consumidores ingleses.
O negócio é tocado por judeus holandeses que montam uma frota fluvial
para cruzar o continente e exigem o estabelecimento das primeiras regras
que atestem a origem do produto e o prazo de validade.
Os vinhos de então, muito açucarados, são instáveis,
mal acondicionados, e não suportam longas viagens ou armazenagem. Avinagram-se
com freqüência e devem ser bebidos logo depois de sua produção. Mesmo
assim é uma bebida de classe, de nobres.
Ao povo, resta a cerveja, que muitas vezes, por ser
feita de cereais fermentados, substitui o pão na dieta do camponês.
É comum crianças se embebedarem.
Tem-se notícia de que ricos comerciantes holandeses
importavam uma cerveja de luxo, com alto teor alcoólico, de Leipzig,
na Alemanha. Mas é uma bebida da ralé. Há relatos de que camponeses
da Polônia e da Alemanha tomavam, me média, três litros da bebida por
dia.
Alojada fora dos domínios da vinha (norte da Itália
e na parte sul da França), a cerveja é comum na vasta zona dos países
do Norte. O reino da cerveja, porém, não tem fronteiras rígidas. A cidade
espanhola de Sevilha inaugura sua primeira fabrica de cerveja em 1542.
Um livro, editado em 1575 faz uma lista dos nomes
e apelidos das cervejas famosas e fala das virtudes medicinais que têm
para os bebedores. O domínio da cerveja é ameaçado apenas pela sidra,
um fermentado de maçãs.
As macieiras destinadas a produção de sidra ganham
terreno nos séculos XV e XVI e ocupam o norte da França. Será, por bom
período de tempo, uma bebida da emergente burguesia, pouco afeita à
cerveja e sem dinheiro para o vinho. (LAW)
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