logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O VIGÉSIMO NONO DIA DA VIAGEM

Torre de Babel

O judeu Gaspar da Gama é o língua da frota. Será o intérprete entre portugueses e indianos. No Renascimento, a Europa trocou o latim pelo populacho

Pieter Brueghel, o Velho, pinta A Grande Torre de Babel (1563): Deus cria várias línguas para punir o orgulho dos homens. Nunca mais conseguiriam se comunicar

Domingo, 5 de abril de 1500. De manhã, durante a missa dominical, os marujos rezaram pela retorno dos ventos, porém suas preces não foram atendidas. Os barcos continuam lentos, navegando no rumo sul, em direção ao Equador. Por enquanto, as sonhadas Índias parecem um pesadelo distante. Não bastará chegar até àquelas longínquas terras. O rei quer que os navegadores dialoguem e negociem com os indianos. Para isso, os portugueses têm um poderoso trunfo. Carregam na nau capitânia um poliglota de quase 60 anos chamado Gaspar da Gama. Fala latim, árabe, italiano, dialetos indianos, castelhano e português. É o ‘‘língua da frota’’, o intérprete. Traduzirá conversas entre o comandante Cabral e os rajás indianos, terá de ter talento para impedir que o pouco conhecido idioma português atrapalhe os negócios entre as duas nações.

  Gaspar da Gama, sempre com uma touca na cabeça e vestido com roupa branca de linho, é um dos personagens mais curiosos desta esquadra. É um judeu errante, nascido perto do ano de 1440, nos Balcãs, na região que mais tarde se chamará Bósnia. Ainda menino, migrou para a Alexandria. Por volta de 1470, mudou-se para a Índia, onde viveu até 1498 quando Vasco da Gama chegou à Ásia, na ilha de Angediva, no Oceano Índico, a cerca de 20 quilômetros da costa.

  Naquele 25 de setembro de 1498 a vida de Gaspar mudou. Sem ser convidado, apareceu no barco de Vasco da Gama. Em dialeto veneziano, (como Veneza é um grande centro comercial vários navegadores compreendem esta língua) Gaspar contou uma estranha história. Escondeu sua origem judaica, falou que era mouro, mas confessou-se cristão. Disse que trabalhava para um poderoso senhor, dono de um exército com mais de ‘‘40 mil homens de cavalo’’, e que ao saber da chegada dos estrangeiros pediu ao patrão que fosse vê-los. ‘‘Se não deixasse morreria de tristeza’’, conforme relatou Álvaro Velho, escrivão da frota de Vasco da Gama.

  O navegador português acreditou nas palavras do visitante, mas discretamente pediu que um de seus homens fosse até a ilha checar se Gaspar era homem confiável. Não era. Na ilha, alguns cristãos contaram que Gaspar preparava um ataque aos europeus. O português retornou correndo para o barco e contou o que ouvira. Os portugueses ficaram furiosos, açoitaram o judeu e lhe fizeram longo interrogatório. Segurando um queijo e dois pães moles, oferecidos por Vasco da Gama, Gaspar negou qualquer trama. Disse que estava muito feliz em ver aqueles francos — era assim que os orientais chamavam os europeus.

  Vasco da Gama decidiu prender Gaspar. Ficou mias 12 dias atracado e depois carregou o judeu para Lisboa. No meio do caminho, o estrangeiro virou amigo dos portugueses. Converteu-se ao catolicismo, virou cristão-novo e Vasco da Gama o batizou. Adotou o sobrenome do padrinho: Da Gama. Até hoje não se sabe seu verdadeiro nome. Em Lisboa, Gaspar foi apresentado ao rei dom Manoel que, espertamente o manteve sempre próximo. Não sabia se ele era um espião indiano, mas tinha certeza que em viagens futuras, Gaspar teria boa serventia como intérprete. Na primeira oportunidade, o nomeou língua da frota de Cabral. O judeu cumprirá bem a missão, não trairá os lusitanos nos contatos em Calecute e Cochim. Em 1502, retornará às Indias com o padrinho Vasco. Só morrerá em 1520, com quase oitenta anos e mais algumas línguas africanas no currículo.

* Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.