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O MUNDO NA
ÉPOCA
Do culto latim aos idiomas populares
Em cada lugar fala-se um dialeto. São tantos — e
misturam-se com tanta facilidade — que parece impossível estabelecer
comunicação entre pessoas de diferentes regiões da Europa. Imagine,
então, com os povos das Índias, o principal objetivo das navegações
comerciais.
No mundo europeu, o jeito é recorrer ao latim, há
tempos a língua internacional graças ao poder de Roma ao longo da história.
É o idioma dos livros, do conhecimento, das descobertas científicas.
E também dos textos religiosos, da palavra sagrada.
No tempo de Cabral, quem conhece o latim culto é
capaz entrar no universo das letras. É o que faz, por exemplo, o italiano
Leonardo, proveniente da cidade de Vinci, que ficaria conhecido como
uma das mentes mais brilhantes dos séculos XV e XVI.
Nas ruas das vilas e cidades por onde se estendeu
o domínio romano, povo e negociadores usam as línguas românicas. Elas
provêm da linguagem cotidiana dos tempos imperiais, do latim vulgar
levado pelas legiões romanas e pelos comerciantes. Diferenciam-se profundamente
do idioma dos autores clássicos na pronúncia, na morfologia, na sintaxe
e no vocabulário. São usadas no comércio, na troca de produtos, na aquisição
das especiarias que invadem os portos do sul da Europa e trazem junto
expressões dos dialetos indianos.
Com o intercâmbio entre as regiões, nascem os idiomas
comuns da Europa, como o francês, o italiano, o castelhano, o romeno
e o português, que virão a se tornar as línguas dominantes de seus países.
Mas desenvolvem-se também idiomas e dialetos regionais e nacionais que
serão, muitas vezes, reprimidos à força, no momento em que os pequenos
reinos medievais forem unificados em grandes Estados nacionais. Entre
eles estão o catalão e o vêneto (veneziano).
Embora a origem latina de sua língua seja evidente,
os portugueses querem mais. Eles pretendem demonstrar a semelhança dela
com o latim. Acreditam que, se o conseguirem, o português herdará a
mesma superioridade da língua mais antiga. Do outro lado da fronteira,
alguns gramáticos do Reino de Castela (que virá a ser a Espanha) pretendem
demonstrar ser o castelhano uma das 72 línguas primitivas resultantes
da corrupção de Babel.
Ao lado delas, o português seria idioma secundário,
que não valia a pena estudar. Na época, parece impossível distinguir
a língua galega (da Galícia, região ibérica ao Norte de Portugal) da
portuguesa. Daí a denominação de galego-português para o idioma escrito
e falado no período medieval.
Com a expansão marítima, as conquistas de novos territórios
e a imposição dos idiomas nacionais, a língua de cada país ganha força.
A briga pela predominância é intensa.
Há quem considere o francês o mais adequado instrumento
para os negócios políticos. A língua primeiramente falada em Paris se
impõe, por exemplo, ao provençal, dominante da Idade Média, e chega
à Bélgica e Suíça.
A Inglaterra e a Alemanha, embora tenham idiomas
de origem anglo-saxônica, recebem várias influências das línguas românicas,
particularmente no vocabulário. Os dialetos falados em Londres resultam
no inglês comum, que expande-se para o norte e o oeste, dominando Gales,
a Escócia e a Irlanda, onde são falados dialetos de origem céltica.
Logo depois dos descobrimentos, o alemão deixará
de ser restrito a seu pequeno território original. Ao contrário da maioria
das línguas européias, difunde-se primeiro como escrita e depois na
modalidade falada. Isso acontece porque Lutero, depois da Reforma, escolhe
a língua alemã para traduzir a Bíblia — anátema para os católicos, guardiães
do latim — e pregar o protestantismo.
* Alethea Muniz, da equipe do Correio
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