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BRASIL 500 ANOS: O TERCEIRO DIA DA VIAGEM

O mundo na época: Navegar contra o vento

Agora, a frota anda num bom ritmo, rumo ao sul. Como eram as naus e caravelas da esquadra de Cabral e em que estágio se encontrava a navegação marítima no mundo

Detalhe de um bimbo chinês do início do século XVII, retratando as caravelas portuguesas: altos investimentos

  Todos os anos são de transição para quem neles vive. Mas o ano de 1394, em que nasceu o infante dom Henrique, o navegador, foi diferente: Portugal era um país pronto desde a batalha de Aljubarrota. Não estava envolvido em nenhum grave problema interno. A questão fundamental era crescer. E o desafio estava diante dos olhos. O mar. Chegar onde o homem jamais chegara.


  A expansão marítima portuguesa teve objetivos definidos. Foi produto de minucioso planejamento. No centro de tudo esteve o infante dom Henrique. Ascético, disciplinador e quase religioso. Ele criou a chamada Escola de Sagres, no extremo sul de Portugal, que funcionou como ponta de lança do descobrimento. Primeiro foram as aventuras africanas. A invasão de Ceuta. Depois o lento descer da costa ocidental da África. Cada piloto era obrigado a navegar cem milhas além daquele que o antecedeu. E a fazer um relato preciso de tudo o que viu.


  Era necessário, no entanto, encontrar o barco certo. A navegação no Mediterrâneo era fácil. Sempre ao longo da costa, dentro de um mar que possui no máximo 800 quilômetros de largura. Possui ventos constantes. O tamanho das embarcações naquelas circunstâncias era a função do lucro que elas poderiam gerar. Existiram navios venezianos com mais de 600 toneladas. E de velas redondas, fixas. É barco para andar a favor do vento. Jamais contra.


  A navegação em mar aberto exige outra técnica. Os marinheiros querem ir e voltar. Se na ida o vento é de popa, na volta será de proa. Seria necessário inventar o barco que navegasse contra o vento. E capaz de percorrer longas distâncias sem fazer escalas. Além disso, deveria ter pouco calado — profundidade — para permitir a exploração de águas rasas e realizar manutenção periódica em condições desfavoráveis.
  Os engenheiros a serviço de dom Henrique estudaram o desenho dos caravos, navios utilizados pelos árabes desde tempos antigos nas costas da Grécia e da Tunísia. Essas embarcações, equipadas com velas latinas (triangulares), chegavam a transportar tripulações de 30 homens, além de 70 cavalos. Barco similar, porém menor, era utilizado no rio Douro, no norte de Portugal. Os técnicos combinaram os dois conceitos e criaram o navio capaz de transportar 20 homens e suas provisões. Tinha em média 21 metros de comprimento e 7,5 metros de largura. Utilizavam dois ou três mastros com velas latinas.


  A caravela tinha a capacidade de sair e regressar ao ponto de partida. Orçava bem. Navegava bem no contravento. Seu pequeno calado permitia a exploração de águas rasas e facilitava consertos periódicos. Rapidamente, ela se transformou na marca da modernidade portuguesa. ‘‘São os melhores navios que navegaram os mares’’, disse Alvise da Cadamosto, experimentado navegador veneziano.


  Lagos, a poucos quilômetros de Sagres, transformou-se no centro de construção de caravelas. O carvalho para as quilhas vinha do Alentejo, adjacente ao Algarve, e o pinho para os cascos era retirado nos pinheirais que cresciam na costa atlântica portuguesa, onde eram protegidos por lei. Os pinhais também produziam a resina para impermeabilizar o cordame e calafetar as juntas dos casos. Em torno de Lagos, logo apareceram oficinas para produzir velas, cordas e outros apetrechos de navegação.


  Em Sagres, dom Henrique instalou todos os protagonistas essenciais para a grande aventura. Estavam lá capitães, pilotos e marinheiros. Cartógrafos, fabricantes de bússolas, construtores navais, carpinteiros e artesãos. Tudo, naturalmente, girava em torno desta figura mítica que fazia o planejamento minucioso de cada viagem. O infante dom Henrique, embora nunca tenha participado de expedição relevante no mar-oceano, é o pai das descobertas. E a caravela seu principal instrumento.

( * ) André Stumpf, da equipe do Correio






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