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BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO DIA DA VIAGEM
Sem passagem de volta
Os tripulantes que não retornarão a Lisboa. Por ordem
do rei, ficarão no meio do caminho para fundar feitorias na África e
na Ásia. Portugal domina e escraviza africanos
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| Xilogravura do Castelo
de Mina (autor e datas desconhecidos): tráfico de gente e de elefantes
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| Representação do Castelo
da Mina, no Atlas do Universal, de Sebastião Lopes, 1565: negros
da Mina, escravos dos portugueses, durante quatro séculos
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| Angolanos (autor desconhecido):
a rica cultura negra que se perdeu
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Segunda-feira, 6 de abril de 1500. Estas intermináveis
calmarias preocupam em particular um pequeno grupo de tripulantes desta
frota. São os futuros funcionários das feitorias portuguesas, que por
ordem real serão criadas na África e nas Índias. Terão função diplomática
e comercial, representarão Portugal em terras de além-mar. Trocarão
de país, de continente e de cultura.
Em carta escrita em fevereiro de 1500, dom Manoel
manda que Martim Neto, Afonso Furtado, Gonçalo Gil, Ayres Correa e Pero
Vaz de Caminha, todos tripulantes desta frota, fiquem em Calecute e,
lá, cuidem dos interesses comerciais e políticos de Lisboa. Ayres será
o feitor; Martim Neto e Afonso Furtado serão os notários da receita.
Caminha e Gil terão a função de escrivães da despesa. Dividir as informações
sobre receita e despesa é uma maneira de o rei garantir a honestidade
dos negócios.
Dom Manoel é minucioso. ‘‘Fareis vossos livros de
cada ano bem titulados. Neles anotará a receita de todas as mercadorias,
ouro, prata, dinheiro e qualquer outras coisas’’, escreveu o rei. Registrou
até o lugar em que os tais livros devem ser guardados. ‘‘Estarão numa
arca de três fechaduras e quando os tirares de lá de dentro, devem fazer
todos juntos’’, ordena Sua Majestade.
Além dos futuros funcionários de Calecute, estão
também nesta esquadra os 230 responsáveis pela criação da feitoria de
Sófala na África. Já falamos destes homens. Integram a segunda divisão
da armada, são comandados por Bartolomeu Dias e por seu irmão, Diogo
Dias. O interesse real em se instalar na banda oriental da África, revela
que dom Manoel quer ampliar o domínio português naquelas terras. Sófala
é região rica em ouro e porto recorrente dos navios árabes.
Portugal não tem dificuldade em entrar na África.
Está no continente desde 23 de julho de 1415 quando, por determinação
do jovem infante dom Henrique, então com 19 anos, uma horda de lusitanos
invadiu a pacífica e organizada cidade de Ceuta, no Marrocos. ‘‘Ceuta
é a porta e a chave de todo o comércio africano’’, disse, na época,
o rei Dom João I.
Para arrombar as portas de Ceuta, os portugueses
usaram duzentas embarcações, com 50 mil soldados e 30 mil marinheiros,
nada menos que 20% dos habitantes de Portugal. Desembarcaram no território
árabe como alucinados cristãos . Nos uniformes, traziam cruzes de Cavaleiros
de Cristo, evidência de que se tratava de uma guerra santa. Os árabes
não queriam guerra.
Sala-bin-Sala, senhor de Ceuta, não esboçou reação.
Era homem mais preocupado com o vil metal do que com a guerra. Sua cidade
tinha 24 mil lojas. Vendia-se ouro, prata, cobre, latão, sedas e especiarias.
Nas casas, havia pátios internos com fontes, paredes ricamente decoradas
e chão coberto com tapetes orientais. ‘‘Perto de essas, as melhores
casas de Portugal parecem pocilgas’’, escreveu Gomes Eanes de Zurara,
o cronista da invasão.
Os soldados de Portugal não tiveram sensibilidade
sequer para respeitar o que viam. Derrubaram o que estava na frente.
‘‘Os potes de conservas, jarras de mel, manteiga e azeite corriam em
enxurrada pelas ruas’’, anotou Zurara. Dom Afonso Barcelos, meio irmão
de dom Henrique, chegou ao cúmulo de sequestrar para Portugal 600 colunas
de alabastro e mármores tiradas do palácio do soberano marroquino. Da
principal praça da cidade roubou a cobertura revestida em ouro.
O massacre derrotou Ceuta e os portugueses não a
reergueram. O comércio árabe fugiu para Tânger e Tunis. À Portugal restou
um tesouro em ruínas. E, dali, com tortura e escravidão do povo, começou
a cruel ocupação portuguesa na África.
* Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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