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O MUNDO NA
ÉPOCA
A costa dos escravos
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| Crueldade portuguesa
(autor desconhecido): escravos eram capturados e amarrados no interior
da África e levados para a costa
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‘‘...E se as brutas animálias, com seu bestial sentir,
por um natural instinto conhecem os danos das suas semelhantes, que
queres que faça esta minha humana natureza, vendo assim ante os meus
olhos esta miserável companha, lembrando-me que são da geração dos filhos
de Adão!
....qual seria o coração, por duro que ser pudesse, que não fosse pungido
de piedoso sentimento? Porque uns tinham as caras baixas e os rostos
lavados com lágrimas....; os filhos, que viam os padres em outra [parte]
alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as madres apertavam os
outros filhos nos braços, recebendo feridas com pouca piedade de suas
carnes, para não lhe serem tirados.’’
Gomes Eanes de Zurara, A Partilha dos Escravos, na Crônica dos Feitos
de Guiné
Antes de tornar-se americano e asiático, no século
XVI, o império português foi africano. A cena que comove Zurara, biógrafo
do infante D. Henrique, desenrola-se em meados de século XV no porto
de Lagos, ao sul de Lisboa, para onde eram levados os africanos capturados
nas expedições portuguesas.
Entre 1415, o ano da conquista de Ceuta, e 1498,
quando Vasco da Gama chega à Índia, Portugal volta-se para a imensa
costa da África. Afonso V, sobrinho do infante e rei a partir de 1446,
ganha o apelido de Afonso, o Africano, pela importância que o comércio
com o continente ganha em seu reinado.
O que trazem os portugueses da África? Ouro da Guiné,
pimenta malagueta — de qualidade inferior à indiana, mas ainda assim
valiosa — e escravos. Calcula-se que cerca de trinta e cinco mil africanos
teriam chegado a Portugal ao longo do século XV.
Hyeronimus Münzer, visitante alemão na Lisboa de
1494, encontra uma cidade invadida por visões africanas: camelos, leões
e crocodilos criados nos palácios e nas casas da burguesia; filhos de
príncipes etíopes educados nos costumes europeus; multidões de escravos
nos mercados.
João II, filho de Afonso V e rei na época da visita
de Münzer, chegou a mandar para as ilhas de Cabo Verde padres negros
— africanos trazidos ainda crianças para Portugal e formados pelas ordens
religiosas. Da mesma forma, jovens negros educados em Lisboa voltavam
para a África como intérpretes dos navegadores portugueses nos encontros
com reis e comerciantes africanos.
Para abastecer essa máquina expansionista, os portugueses
criaram seus primeiros postos avançados coloniais. O mais antigo é Argüim,
ilha na costa da atual Mauritânia atingida por Nuno Tristão em 1444.
Dez anos antes, Gil Eanes conquistara o temido Cabo Bojador e abrira
para os navegantes lusitanos as costas africanas.
D. Henrique criou em Argüim, em 1448, a primeira
feitoria comercial européia na África atlântica. Lá, as rotas comerciais
do interior do continente, exploradas por mercadores muçulmanos em caravanas
de camelos, encontravam-se com a rota marítima portuguesa. Era o lugar
das trocas.
Foi seguida por São Jorge da Mina, fortaleza construída
na costa da Guiné em 1482 para concentrar o embarque dos escravos. Imponente,
imbatível até o século XVII, quando os holandeses a tomaram, São Jorge
da Mina foi um dos símbolos mais potentes do colonialismo europeu. Encarnava
a imagem do tráfico de gente que só viria a ser extinto no século XIX,
depois de mudar seu destino para o Brasil, o Caribe e os Estados Unidos.
O litoral do Golfo da Guiné já ganhara, então, um apelido odioso: era
a Costa dos Escravos.
* Armando Mendes, da equipe do Correio
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