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BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO PRIMEIRO DIA DA VIAGEM
Os três banqueiros de Cabral
Custa caro mandar grandes esquadras atravessarem o Atlântico
e o Índico. Mas o rei de Portugal não banca sozinho a empreitada: conta
com os mais astutos financistas da época
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| Dois financistas de
Florença em sua banca: a origem dos bancos modernos. A moeda florentina,
o fiorino, ou florim, era o dólar da época; a referência internacional
dos negócios
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Terça-feira, 7 de abril de 1500. Quase um mês depois
da partida de Lisboa, os doze barcos de Cabral estão chegando à linha
do Equador. Logo passarão ao hemisfério sul da Terra. Mas ainda estão
longe da Índia, seu destino final, aonde só chegarão em setembro.
Uma viagem tão longa, de esquadra tão numerosa, é
um empreendimento caro. Quem o financia? A coroa portuguesa, em primeiro
lugar, respaldada por capitais privados da burguesia lisboeta e das
grandes casas bancárias e comerciais italianas.
Dois navios da frota de Cabral pertencem a empreendedores
privados. O maior é a caravela Nossa Senhora da Anunciada, comandada
por Nuno Leitão da Cunha e armada por Álvaro de Bragança, nobre português,
em sociedade com três banqueiros: os florentinos Bartolomeo Marchionni
e Girolamo Sernigi e o genovês Antonio Salvago. O segundo é uma nau
pequena da qual sabemos que também tinha armadores italianos, mas conhecemos
apenas o sócio português, o nobre Diogo da Silva e Meneses.
É uma parceria antiga a que associa nobres e navegadores
portugueses às cidades-estado de Gênova e Florença. Remonta a 1317,
quando o rei dom Dinis nomeia almirante-mor do reino o genovês Pessagno
(que viria a aportuguesar o nome para Manuel Pessanha). Mais tarde,
no século XV, navegadores genoveses e venezianos participam de algumas
das expedições enviadas pelo infante dom Henrique para reconhecer a
costa africana e as ilhas do Atlântico.
Um deles, o nobre veneziano Alvise da Cadamosto,
deixa excepcionais relatos sobre os povos, os animais e a natureza da
África. Mas outros italianos são ainda mais importantes do que os pilotos
e navegadores: aqueles que aportam crédito financeiro e experiência
comercial à empreitada dos descobrimentos.
Aqui, Veneza sai de cena. O porto do Adriático é
rival direto dos portugueses no comércio com o Oriente. É para romper
o monopólio veneziano das especiarias que Vasco da Gama, em 1497/8,
e agora Cabral e seus 1.500 homens se arriscam nas mais longas viagens
marítimas já tentadas por europeus.
Florença e Gênova são rivais políticas e comerciais
de Veneza na península itálica. Têm interesse em ajudar quem tenta desbancar
os venezianos. Desde o final do século XIII as casas comerciais genovesas
começam a instalar correspondentes e sucursais em Sevilha, no reino
de Castela, e logo em Lisboa. A aliança entre portugueses, genoveses
e florentinos funciona bem. Os genoveses tinham criado no século XIII
as primeiras rotas marítimas entre o Mediterrâneo e as cidades européias
do Atlântico Norte, atravessando o estreito de Gibraltar (as colunas
de Hércules, que provocavam nos povos mediterrâneos da Antiguidade pavor
semelhante ao que o Cabo Bojador causava nos europeus do século XV).
[Um obscuro marinheiro genovês chamado Cristóforo Colombo
começa a navegar, na segunda metade do século XV, a serviço de casas
comerciais de sua cidade, e instala-se em Portugal em 1479 para comerciar
o açúcar plantado na ilha da Madeira, possessão portuguesa no Atlântico.
Capitais italianos estão investidos nessa cultura, e Colombo casa-se,
na Madeira, com a filha de Bartolomeu Perestrelo, de origem lombarda
e donatário da ilha de Porto Santo]
Lisboa fica no meio da rota comercial marítima entre
o Mediterrâneo e o Atlântico Norte. Logo será invadida pelos ágeis mercadores
e banqueiros de Gênova e Florença, inventores dos instrumentos financeiros
e contábeis básicos do capitalismo (ver texto abaixo). Dessa forma,
ninguém estranha que capitais italianos ajudem a financiar a viagem
de Cabral. É uma aliança entre a tecnologia naval de ponta e a mais
sofisticada prática comercial deste ano de 1500.
* Armando Mendes, da equipe do Correio.
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