logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O TRIGÉSIMO SEGUNDO DIA DA VIAGEM

Canhões do Atlântico

Os marinheiros de Cabral atravessam o Atlântico em quartéis flutuantes. Só na nau capitânia há 12 canhões. O poderio bélico europeu encontra um Oriente desarmado

Poder bélico de uma galera de piratas (autor desconhecido)
Canhões sobre rodas: raramente usados até o final do século XV. Este modelo é vienense, tem um pino de ferro para facilitar a elevação do cano do canhão
Desenho de Leonardo da Vinci (1452-1519): besta gigante, um tanque de guerra futurista
Esboço de Michelângelo (1474-1527): reforço militar ao bastião da Porta al Prato, em Florença

‘‘Os bombardeiros são quase todos artífices, sapateiros ou alfaites de modo que não sabem dar um tiro de peça quando é mister. Os soldados são filhos de camponeses e outra gente de baixa condição, e apanhados à força desde a idade de 12 anos (...)Não sabem se portar num combate’’
Pyrard de Laval, cronista francês que no século XVI viajou da Europa às Índias

Quarta-feira, oito de abril de 1500. Os pilotos calculam que amanhã a frota vencerá esta longa guerra contra as calmarias. Falemos de outra guerra. A militar. Estes navios são quartéis. A maioria da tripulação é de inexperientes soldados catados à força em Lisboa. Não são treinados para operarem os sofisticados armamentos das naus e caravelas. Só na nau capitânia, há 12 canhões carregados esferas de pedra de vinte e cinco quilos.

  Distribuídos igualmente entres os bordos, para que não desequilibre a caravela, os canhões navais fazem das naus portuguesas as mais poderosas armas de guerra a cruzar os mares do mundo. A viagem pelo Atlântico é tranqüila.

  Não há dúvida de que o progresso do navio a vela e o desenvolvimento do canhão naval (na realidade, idênticos aos de terra) está associado ao expansionismo português.

  Uma revolução tática também está em andamento. Seguindo a nova orientação de que não deviam abordar os navios inimigos e partir para a luta corpo a corpo, mas combater com a artilharia, os portugueses são praticamente invencíveis nos mar.

  Mas manusear os canhões tem seus riscos. É tão perigoso para quem está na linha de tiro quanto para quem os opera. O coice, após cada disparo, é tremendo, fazendo com que o canhão percorra todo o convés se não estiver amarrado. Mesmo amarrado, três homens são necessários para domá-lo.

  Armamento corriqueiro, o canhão exige regras fixas para sua operação: uma boca de fogo para cada tonelada de calado. As caravelas portuguesas levam em média dez desses cilindros de ferro fundido ou feitos de uma liga de estanho e bronze.

  Os barcos do Descobrimento, embora carreguem os primeiros canhões, ainda são armados como um castelo e levam para alto-mar um arsenal típico dos conflitos em terra.

  Assim como os castelos renascentistas têm arqueiros ao longo das muralhas e nas torres, os maciços navios também são armados com arcos e flechas.

  Arqueiros fazem parte da tripulação e são colocados em plataformas na proa e na popa para se defenderem de eventuais piratas.

  A esquadra de Cabral carrega uma primeira inovação técnica. As armas são colocadas no meio do navio, e não nos castelos, proporcionando uma plataforma mais segura para o canhão.

  Levam uma vantagem sobre as esguias galeras de remos das águas do Mediterrâneo. Podem, em qualquer caso, disparar várias descargas e assim mesmo permanecer estável sobre o mar.   Armada assim, a esquadra portuguesa não enfrenta apenas um inimigo externo: o mar.

* Luiz Alberto Weber, da equipe do Correio.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.