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O MUNDO NA
ÉPOCA
Belicosos europeus contra pacifistas
orientais
Os europeus tornaram-se donos do mundo no século
XVI porque do outro lado do oceano encontraram povos que haviam renunciado
às armas.
As embarcações ocidentais abalroaram pelo caminho
impérios e povos adeptos de uma filosofia confuciana pacifista ou presos
a ritos hinduístas com horror ao mar, que não ofereceram resistência
aos navegadores.
A China, que havia sido uma potência militar dois
séculos antes das grandes navegações — com um exército de um milhão
de homens —, entregou-se sem luta.
É curioso que isso tenha acontecido. Afinal, os chineses
(prováveis inventores da pólvora) possuíam uma cultura bélica. No século
XIV, haviam usado rústicos canhões para derrotar seus governantes mongóis.
Até o mar por onde portugueses e depois ingleses
e holandeses aportaram tranqüilos era uma trincheira. Nas costas da
China e da Índia, a marinha Ming possuía, em 1420, 1.350 navios de combate.
Muitas dessas embarcações eram equipadas com máquinas
arremessadoras de projéteis, verdadeiras catapultas montadas sobre os
convés que lançavam pedras, às vezes incandescentes, contra os navios
inimigos.
O inimigo que derrotou a China era interno, íntimo.
Um código ético-religioso favoreceu o avanço dos europeus. De acordo
com as leis confucianas, seguidas à risca pelos governantes da dinastia
Ming que se apossaram do país por volta de 1350, a guerra era uma atividade
deplorável.
Os mandarins tinham verdadeira aversão pelo Exército
e Marinha. E como detinham o monopólio militar, impediram o desenvolvimento
e a produção de armas. Chegaram a publicar decretos restringindo a navegação
militar e a colocação de canhões nas embarcações chinesas.
No Japão, não foi diferente. Dominado pelo clã Tokugawa,
os bem treinados guerreiros samurais viviam uma vida de ritos e tédio.
Foram proibidos de viajar ou exibir armas em público. Técnicas letais
de combate foram transformando-se lentamente em shows folclóricos.
Os temíveis sabres passaram a ser portados apenas
em ocasiões solenes, quase como uma peça a mais no guarda-roupa. No
século XVII, todo o aparato militar japonês estava destruído.
Razões técnicas talvez ajudem a explicar como o minúsculo
Portugal conseguiu fincar protetorados na Índia. Mas o que facilitou
o domínio português foi o conservadorismo cultural dos hindus, presos
a rigidez dos tabus religiosos que agiam contra a modernização.
Na Índia, as mais altas castas eram impedidas ou
nutriam horror ao comércio com outros povos. Navegar conspurcava as
almas. Navegar em navios armados que deveriam proteger o comércio era
ainda mais pecaminoso.
Mas foi nos limites da Europa que se travou a grande
guerra do Renascimento. As forças da cristandade e as do profeta Maomé
se enfrentaram. A queda de Constantinopla — antiga capital do Império
Romano no Oriente —, em 1453, é um marco desse conflito.
A tomada pelos otomanos de Constantinopla deixou
na geografia uma marca que até hoje divide os territórios da fé muçulmana
e cristã. Os turcos nessa época marcharam sobre Budapeste e Viena. No
sul, as galeras otomanas atacavam os portos italianos.
A Europa resistiu. O continente tornara-se o terreno
das inovações bélicas: a qualidade da pólvora e a fundição de canhões
muito menores de ligas de bronze e estanho.
Artistas, protótipos dos engenheiros e designers
modernos, foram mobilizados para criarem armas mais sofisticadas. Os
cadernos de Leonardo da Vinci trazem desenhos de um embrião da metralhadora,
de um tanque primitivo e de um canhão a vapor.
A própria estratégia e a indústria militar se modernizaram.
Na Itália, o uso de companhias de arqueiros, protegidos por soldados
com lanças, pôs fim à hegemonia da cavalaria medieval. A artilharia
tornou-se mais importante que a cavalaria na destruição de fortalezas.
Não havia um centro único de produção de arcos, nem
de canhões — seja dos mais antigos, de bronze, ou dos mais novos e mais
baratos, de ferro fundido. Tais armamentos estavam sendo produzidos
próximo das jazidas de minérios em Málaga (Espanha), Milão (Itália),
Liège (França) e até mesmo na Suécia.
A combinação de inovações tecnológicas, de um espírito
comercial, e de uma fé flexível, que permitia a guerra, empurrou a Europa
para o Oriente.(LAW)
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