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BRASIL 500 ANOS: O TRIGÉSIMO TERCEIRO DIA DA VIAGEM

Mestre João, físico e cosmógrafo

A esquadra cruza o Equador e Mestre João encontra dificuldades para medir a altura das estrelas do hemisfério Sul. A cosmologia asteca em 1500

A Carta de Mestre João, com o esboço do Cruzeiro do Sul
Typus Orbis Terrarum, Abraham Ortelio, 1570, com a linha do Equador marcada

‘‘...saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior do que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul) mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece impossível, no mar, tomar-se a altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra.’’
Carta do mestre João Faras ao rei dom Manuel I de Portugal

Quinta-feira, 9 de abril de 1500. Os navios de Cabral cruzam hoje a linha do Equador. Chegam ao hemisfério Sul, onde o céu é diferente daquele que os homens do Norte estão habituados a ver.

  Para um homem da tripulação, em particular, este é um dia extraordinário: o bacharel mestre João Faras, físico e cirurgião de Vossa Alteza, como ele mesmo se identificará na carta que vai enviar ao rei de Portugal no dia 28 de abril, depois de seis dias em terras brasileiras (trecho acima). Mestre João é também o cosmógrafo da frota de Cabral. Quer dizer, o navegador e astrônomo encarregado de mapear os céus do sul.

  Esse acúmulo de habilidades técnicas numa pessoa só é característico do Renascimento. Físico, na linguagem desta época, significa médico. Mestre João deve cuidar da saúde dos tripulantes, além de medir a altura das estrelas e experimentar instrumentos de observação dos astros.

  Mestre João Faras é de origem castelhana, como demonstra a carta, em português ‘‘espanholado’’, que escreverá a dom Manuel — um dos três documentos originais da descoberta do Brasil, ao lado da carta de Pero Vaz de Caminha e do Relato do Piloto Anônimo (a carta de mestre João está reproduzida nesta página). É um homem de ciência respeitado: além de cirurgião particular do rei, traduziu o manual de geografia e cosmografia De situ orbis (Dos lugares do mundo), do autor clássico Pompônio Mela.

  Na carta ao rei, Mestre João assinalará, pela primeira vez num texto escrito, a constelação do Cruzeiro do Sul, que ele chama apenas a Cruz: ‘‘...e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro...’’.

  Navegantes europeus que passaram o Equador e desceram ao longo da costa da África já tinham notado aquela grande constelação (os nativos brasileiros a chamavam de pau-í-pódole). Mas, depois da observação de Mestre João, ela se tornará o ícone dos céus austrais. Representará, para os navegadores do hemisfério Sul, o mesmo papel que a Estrela Polar representa no hemisfério Norte: a principal estrela-guia.

  A carta de Mestre João é bem mais curta do que a de Cabral, mas igualmente carregada de informações. As referências à chaga que o incomoda — logo a ele, o médico da frota — e ao espaço apertado a bordo do navio dão uma idéia das condições precárias em que viajavam os exploradores. E o relato da primeira observação astronômica que ele fará no Brasil, em terra firme, como preferia, indica sua habilidade como astrônomo:

‘‘...descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus, e ter por conseguinte a altura do pólo antárctico em 17 graus, segundo é manifesto na esfera.’’

  É uma medida de precisão extraordinária: calculada por instrumentos modernos, a latitude real da atual baía Cabrália, perto de Porto Seguro — onde Mestre João tomou a altura do sol com um grande astrolábio de madeira — é de 16 graus e 21 minutos.

Armando Mendes, da equipe do Correio.






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