logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

O Deus Sol que retalhou a estrelas

 

O Almanaque Sagrado combinava números de 1 a 13 e vinte nomes e símbolos dos dias

   Enquanto os homens de Cabral navegam com os olhos no céu, a sofisticada civilização asteca, nas terras que hoje são o México, faz da cosmologia a base de sua organização social.

  Os astecas viviam o ápice de seu império em 1500. Tinham cidades ricas com 200 mil habitantes, grandes feiras e obras de engenharia hidráulica. Era o caso da capital Tenochtitlán, cinco vezes mais populosa do que a Londres de Henrique VIII.

  Haviam construído também uma detalhada explicação do criação do Universo e do Homem. As raízes dessa explicação estavam no céu. Acreditavam que Coatlicue, a Terra, mãe do Deus solar Huitzilopochtli, pariu primeiro a lua e quatrocentas estrelas. Depois, engravidou de uma bola de plumas. Seria este o pai do Deus Sol. A nova gravidez envergonhou as filhas, que não aceitavam aquele estranho padrasto.

  Incitadas pela lua, as estrelas cortaram a cabeça de Coatlicue. Foi então que, já crescido e armado, Huitzilopochtli pulou do ventre da mãe e destruiu suas meias-irmãs. Matou a lua, retalhou as estrelas.

  A vingança de Huitzilopochtli transformou-se em martírio. Todas as noites, ele lutava contra as forças da escuridão. Só assim o sol renasceria na manhã seguinte. Do contrário, venceriam as trevas e o mundo acabaria.

  Para vencer essas intermináveis batalhas, Huitzilopochtli precisava estar forte. Para isso existiam os astecas: para alimentar seu Deus. E a comida mais valiosa que os homens poderiam lhe oferecer era sua própria vida — a carne humana era a comida de Deus.

  Todos os anos, os astecas matavam entre 10 e 20 mil pessoas. Morriam em minuciosos rituais, realizados no topo das pirâmides dos grandes templos. Ali, quatro sacerdotes de cabelos compridos punham o sacrificado, pintado de listas vermelhas e brancas, sobre um bloco de pedra de 50 centímetros, e lhe puxavam os braços e as pernas.

  Um quinto sacerdote, empunhando uma faca de pedra afiadíssima, dava um golpe lateral rápido no peito da vítima, cortando de lado a lado o esterno e as costelas. O coração ainda palpitante era arrancado e erguido para o sol. O sangue quente servia para untar as imagens de cerâmica. A pele do morto virava roupa dos sacerdotes.

  Tudo na mitologia asteca tinha alguma relação com o céu e a dor. Para celebrar a chuva, por exemplo, torturava-se as crianças até chorarem: as lágrimas davam vida às sementeiras.

  A cosmologia também orientava os calendários astecas. Tinham duas maneiras de medir a passagem do tempo. Uma era o ano solar, dividido em dezoito meses de vinte dias cada, com cinco dias de azar no final, até completar os 365.

  O outro era o Almanaque Sagrado, um ciclo de 260 dias baseado numa combinação de 1 a 13 com vinte dias com nomes próprios, como chuva, flor, movimento, abutre (símbolos no pé da página). Esse calendário era usado para adivinhação e astrologia.

  Uma vez a cada 54 anos, o início dos dois ciclos coincidia. Era um momento de agouro. A última coincidência ocorreu em 1507. Doze anos depois, o espanhol Hernán Cortés usaria de rara brutalidade para arrasar o império asteca.

Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

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