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O MUNDO NA
ÉPOCA
O Deus Sol que retalhou a estrelas
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| O Almanaque Sagrado
combinava números de 1 a 13 e vinte nomes e símbolos dos dias
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Enquanto os homens de Cabral navegam com os olhos
no céu, a sofisticada civilização asteca, nas terras que hoje são o
México, faz da cosmologia a base de sua organização social.
Os astecas viviam o ápice de seu império em 1500.
Tinham cidades ricas com 200 mil habitantes, grandes feiras e obras
de engenharia hidráulica. Era o caso da capital Tenochtitlán, cinco
vezes mais populosa do que a Londres de Henrique VIII.
Haviam construído também uma detalhada explicação
do criação do Universo e do Homem. As raízes dessa explicação estavam
no céu. Acreditavam que Coatlicue, a Terra, mãe do Deus solar Huitzilopochtli,
pariu primeiro a lua e quatrocentas estrelas. Depois, engravidou de
uma bola de plumas. Seria este o pai do Deus Sol. A nova gravidez envergonhou
as filhas, que não aceitavam aquele estranho padrasto.
Incitadas pela lua, as estrelas cortaram a cabeça
de Coatlicue. Foi então que, já crescido e armado, Huitzilopochtli pulou
do ventre da mãe e destruiu suas meias-irmãs. Matou a lua, retalhou
as estrelas.
A vingança de Huitzilopochtli transformou-se em martírio.
Todas as noites, ele lutava contra as forças da escuridão. Só assim
o sol renasceria na manhã seguinte. Do contrário, venceriam as trevas
e o mundo acabaria.
Para vencer essas intermináveis batalhas, Huitzilopochtli
precisava estar forte. Para isso existiam os astecas: para alimentar
seu Deus. E a comida mais valiosa que os homens poderiam lhe oferecer
era sua própria vida — a carne humana era a comida de Deus.
Todos os anos, os astecas matavam entre 10 e 20 mil
pessoas. Morriam em minuciosos rituais, realizados no topo das pirâmides
dos grandes templos. Ali, quatro sacerdotes de cabelos compridos punham
o sacrificado, pintado de listas vermelhas e brancas, sobre um bloco
de pedra de 50 centímetros, e lhe puxavam os braços e as pernas.
Um quinto sacerdote, empunhando uma faca de pedra
afiadíssima, dava um golpe lateral rápido no peito da vítima, cortando
de lado a lado o esterno e as costelas. O coração ainda palpitante era
arrancado e erguido para o sol. O sangue quente servia para untar as
imagens de cerâmica. A pele do morto virava roupa dos sacerdotes.
Tudo na mitologia asteca tinha alguma relação com
o céu e a dor. Para celebrar a chuva, por exemplo, torturava-se as crianças
até chorarem: as lágrimas davam vida às sementeiras.
A cosmologia também orientava os calendários astecas.
Tinham duas maneiras de medir a passagem do tempo. Uma era o ano solar,
dividido em dezoito meses de vinte dias cada, com cinco dias de azar
no final, até completar os 365.
O outro era o Almanaque Sagrado, um ciclo de 260
dias baseado numa combinação de 1 a 13 com vinte dias com nomes próprios,
como chuva, flor, movimento, abutre (símbolos no pé da página). Esse
calendário era usado para adivinhação e astrologia.
Uma vez a cada 54 anos, o início dos dois ciclos
coincidia. Era um momento de agouro. A última coincidência ocorreu em
1507. Doze anos depois, o espanhol Hernán Cortés usaria de rara brutalidade
para arrasar o império asteca.
Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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