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BRASIL 500 ANOS: O TRIGÉSIMO QUARTO DIA DA VIAGEM

A Volta do Mar

As calmarias acabam e Cabral segue a rota que Vasco da Gama descobriu: mais longa e mais fácil. Do outro lado do mundo, Zhen He, almirante do imperador da China, comanda imponente armada

Sexta-feira, 10 de abril de 1500. Os ventos sopram outra vez. A esquadra venceu as calmarias. Alegria e graças a Deus a bordo dos doze navios. Entram os alísios de sudeste, ventos da região equatorial que desafiam a habilidade dos pilotos do comandante Pedro Álvares Cabral.

  Os alísios, neste ponto do oceano, sopram exatamente da direção para onde Cabral quer se dirigir — sudeste. Barcos a vela não podem navegar diretamente contra o vento. Na melhor hipótese, fazem um ângulo fechado com o vento, graças às velas triangulares. Orçam, na linguagem dos marinheiros.

  Para avançar na direção do vento é preciso orçar o máximo, indo muito devagar, até o ponto em que a embarcação quase pára. Nesse momento é necessário cambar, ou bordejar: mudar o rumo do barco, cruzando a linha do vento e trocando a vela de bordo. E repetir a manobra mais adiante, trocando seguidamente de bordo, em zigue-zague.

  Cabral orça no rumo sul-sudoeste, seguindo as orientações que recebeu de Vasco da Gama antes de partir. Afasta-se da costa africana e aproxima-se da costa brasileira. Se tivesse virado para oeste, oferecendo ao vento o outro bordo dos barcos, iria rumar para o golfo da Guiné, aproximando-se da África e afastando-se do Brasil. Esta foi a rota que Bartolomeu Dias seguiu alguns anos antes, costeando o continente africano (as três rotas estão traçadas no mapa desta página).

  Cabral escolhe a rota mais longa. Por que? Na arte de navegar, o caminho mais rápido entre dois pontos não é necessariamente a linha reta. Navegação a vela é uma ciência de triangulação. Jamais se vai direto ao ponto.

  A rota africana costeira de Bartolomeu Dias é a mais difícil. Bate de frente com a corrente de Benguela, que corre de sul para noroeste, e com os ventos alísios de sudeste, que sobem com força a costa da África. Os barcos avançavam devagar, bordejando (mudando de direção em zigue-zague) o tempo todo.

  Dias só conseguiu vencer a ponta sul da África quando se afastou da costa e avançou direto para sudoeste até encontrar os ventos que descem a costa brasileira e passam a soprar de oeste para leste. Fez uma pequena volta no extremo sul da África.

  Vasco da Gama agiu mais cedo. Após escala na ilha de Cabo Verde, abriu para sudoeste, ao contrário de Dias, e passou 97 dias sem avistar terra até alcançar o Cabo da Boa Esperança. Fez o que os portugueses batizaram de volta do mar. Esteve muito perto de antecipar o descobrimento de Cabral. Navegou próximo às costas brasileiras. Viu pássaros que se dirigiam para oeste.

  Ao invés de enfrentar ventos e correntes, Vasco da Gama usou-os a seu favor. Navegou com ventos de través (sopram pelo lado do barco) ou de popa, que imprimem maior velocidade aos veleiros. Pôde seguir num bordo único, sem zigue-zagues.

  Assim, o caminho mais longo pôde ser também o mais fácil. Essa intuição genial o projetou como um dos maiores navegadores de todos os tempos (não podemos esquecer que em 1500 não se conhece ainda o regime geral de ventos e correntes do Atlântico. Navega-se pelo faro e experiência).

  É por isso que Cabral, no comando da segunda esquadra portuguesa a demandar as Índias, segue a rota de Vasco da Gama. Faz a volta do mar. Mas afasta-se um pouco mais para oeste. Vai encontrar a costa brasileira. Por acaso ou deliberadamente? Os historiadores passarão os próximos 500 anos discutindo esse dilema.

Armando Mendes e André Stumpf, da equipe do Correio.

As rotas marítimas dos três grandes navegadores portugueses: Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e Bartolomeu Dias








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