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O MUNDO NA
ÉPOCA
A China desiste de navegar
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| Girafa pintada sobre
seda: presente do sultão do Malindi ao imperador chinês Yongle.
Foi levada para China nos barcos do comandante Zhen He em 1417
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| Barco de Zhen He: 135
metros de comprimento e capacidade para 1500 toneladas. Quinhentos
homens cuidam dos mastros com cinco velas rígidas de bambu.
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‘‘Os ministros e o povo todo se juntaram para ver
o animal, e sua alegria não conhece limite. Eu, vosso servidor, ouvi
dizer que quando um sábio possui a virtude da máxima benevolência, tal
que ilumina até os lugares mais escuros, então aparece um zhi lin. Isso
mostra que a virtude de Vossa Majestade iguala aquela dos céus.’’
Zhen Tu, artista que desenhou a primeira girafa a chegar à corte
Ming, dirigindo-se ao Imperador da China
Para os chineses, a girafa é o zhi lin, animal mítico
da felicidade. Toda a corte se reúne numa das portas de Beijing, num
dia de verão de 1415, para ver chegar um zhi lin. Cortesãos admiram
o andar majestoso da girafa e o ritmo de seus movimentos.
Ela vai se juntar a outras criaturas exóticas — leões,
zebras, rinocerontes, leopardos, dromedários e antílopes — no zoológico
particular do Imperador, a Floresta Proibida. Como chegou à China? Foi
trazida por uma grande esquadra chinesa que alcançou o porto de Melinde,
na costa oriental africana, navegando pelo Oceano Índico no sentido
Índia-África.
É um feito notável. Melinde, é bom lembrar, é o último
porto africano que a frota de Vasco da Gama vai tocar quase um século
depois, em 1497, antes de cruzar o Índico no sentido inverso e chegar
a Calecute, na Índia.
Quase todos os povos que habitam terras litorâneas
no século XV têm barcos a remo e a vela. Mas só os europeus dão o salto
mais arriscado: afastam-se da costa e saem em busca de continentes desconhecidos.
Passam meses no mar, orientando-se pelos astros.
Chineses, indianos, árabes, indonésios e outros povos
navegadores exploram antigas rotas marítimas de comércio. No Oceano
Índico, algumas travessias podem levar os barcos para mais longe da
costa. Mas o destino é conhecido.
Ao contrário dos portugueses que empreendem a conquista
do Atlântico Sul, os navegadores do Índico percorrem mares familiares.
Eles sabem aonde vão e os caminhos para chegar lá, aproveitando o regime
regular das monções (os ventos do Índico).
A navegação mediterrânea e atlântica dos europeus,
até meados do século XV, não era muito diferente. Navegava-se perto
da costa ou em curtos períodos de alto mar. Mas, em algumas décadas,
tudo muda. Historiadores contemporâneos continuam a debater porque foram
os europeus que deslancharam as navegações de longo curso.
Os avanços da tecnologia naval — a caravela, a navegação
pelos astros — com certeza ajudaram, Mas não bastam para tirar essa
dúvida. Uma questão, em particular, intriga os estudiosos: por que os
extraordinários juncos chineses do almirante Zhen He — os mesmos que
chegaram à África na primeira metade do século XV e levaram a girafa
de presente para o Imperador — não completaram, ao revés, a rota de
Vasco da Gama, passando do Oceano Índico ao Atlântico pelo Cabo da Boa
Esperança?
Zhen He era um chefe militar improvável para a China.
Eunuco e muçulmano, era adversário, nas intrigas cortesãs, da elite
burocrática e intelectual confuciana que cercava o imperador Yong Le.
Mas o imperador era um governante expansionista que sabia usar o poder
naval. A serviço dele, Zhen He liderou sete grandes expedições marítimas
entre 1405 e 1433.
Grandes é uma palavra modesta. Gigantescas, avassaladoras,
descrevem melhor o porte das armadas de Zhen He. Ele navegava com dezenas
de barcos — mais de sessenta, numa das viagens — e até 28 mil soldados
e tripulantes a bordo (a frota de Cabral leva 1.500). Os barcos eram
incomparavelmente maiores e mais bem equipados do que os navios europeus
do século XV e até do século XVI.
Os juncos — tipo chinês de embarcação — de Zhen He
podiam ter até 135 metros de comprimento, quatro a seis mastros, e deslocar
3 mil toneladas, contra os 20 ou 30 metros e 100 ou 120 toneladas dos
barcos de Vasco da Gama e Cabral. Tinham o casco dividido em compartimentos
estanques, que permitiam isolar a entrada de água provocada por uma
eventual avaria (os barcos europeus só usarão essa técnica bem mais
tarde).
Os chineses eram mais avançados, e não só na construção
naval. Tinham algum conhecimento dos bons efeitos das frutas e verduras
frescas e as plantavam a bordo, para combater o escorbuto. Alcançaram
Zanzibar e as costas de Moçambique, onde Zhen He veio a morrer em 1433,
aos 66 anos, na volta de sua sétima viagem (um ano depois, Gil Eanes,
a serviço do infante dom Henrique de Portugal, conquistaria o Cabo Bojador,
do outro lado da África).
O imperador expansionista tinha morrido alguns anos
antes de Zhen He. A academia e a burocracia confucionistas aproveitaram
o vazio: fecharam os estaleiros, cortaram o orçamento naval e até destruíram
os registros das viagens do almirante eunuco. O comércio, para eles,
era uma atividade baixa e indigna, e a expansão marítima representava
um risco para a integridade do império. A China fechou-se em si mesma
e sumiu dos mares. A Europa vai aproveitar a chance (AM).
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