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BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO QUINTO DIA DA VIAGEM
Presentes, tesouros e guloseimas
Arcas de prata cheias de moedas de ouro, marmelada,
queijo e uma cadeira forrada com veludo vermelho são os tesouros carregados
por Cabral e cobiçados por piratas e corsários
Sábado, 11 de abril de 1500. Nem tudo nesta frota é
sujo e cheira mal. Há alguns luxos e outros tesouros. Cabral carrega
em seu camarote uma cadeira de espaldar alto e estofamento em veludo
vermelho. Será um presente do rei dom Manoel ao samorim, o soberano
indiano, quando os barcos atracarem em Calecute. Por ora, os 12 navios
cumprem a volta do mar, da qual falamos ontem, e navegam para o sudoeste
empurrados pelos ventos alísios.
O samorim receberá outros mimos reais. Sua Majestade
mandou abarrotar estas naus e caravelas de moedas de ouro de vários
países. Há os cruzados e os portugueses com emblemas de dom Manoel,
cunhados em 1499 para celebrar a chegada de Vasco da Gama às Índias.
Há os justos e os espadins de dom João II, as dobras castelhanas, os
florins de Aragão, as coroas flamengas, os ducados de Veneza e até as
dobras mouriscas.
Dizem que jamais um rei pôs tanto dinheiro dentro
de um navio. As moedas ficam guardadas em arcas de prata na cabine do
comandante. Só Cabral tem a chave. Carrega-a no bolso. Teme assaltos
dos marujos e de piratas. Os marinheiros mais antigos contam que o Mar
Mediterrâneo é cheio de ladrões e que alguns já ousam saquear no Atlântico.
Se alcançarem estes barcos, além de levar as moedas e a cadeira, poderão
deliciar-se com marmeladas e queijos, os outros dois artigos de luxo
a bordo. Só podem ser consumidos em ocasiões especiais (serão devorados
na chegada ao Brasil, na festa da Páscoa e no desembarque em Calecute).
Portugal está virando um país açucarado. No começo
do século XVII, trabalharão em Lisboa 12 biscoiteiros, 54 confeiteiros,
60 doceiras e ainda umas 15 mulheres que venderão as guloseimas de porta
em porta — curiosamente na mesma cidade, na mesma época, haverá apenas
43 boticários, 37 cortadores de carne e 30 carniceiros.
A nobreza cultua as docerias exóticas, preparadas
com especiarias da África e da Ásia. Ficará famosa a receita de fartéis
(tipo de biscoito com massa mole) do Livro de Cozinha da Infanta D.
Maria: ‘‘Para meio alqueire de mel há mister um arretel de erva-doce
e meia onça de cravo, e de gengibre e de pimenta, o que cada um quiser’’.
As receitas portuguesas combinam paladar de formiga,
temperos d’além mar e senso literário. Em delicioso e poético português
quinhentista são escritas, por exemplo, as seguintes dicas para a preparação
de confeitos: ‘‘o ponto do açúcar deverá ser muito delgado; e sempre
há de ser o tacho onde andar o açucar, e a fervura há de ser como quando
nasce água numa fonte, que faz aqueles brinquilhos’’.
Foi nos meados dos quinhentos que os portugueses
trocaram o mel pelo açúcar. Planta-se cana na Ilha da Madeira, ocupada
pelos lusitanos no final do século XV. Na ilha, eles montaram uma grande
colônia e, pela primeira vez, mostraram que as grandes navegações não
são apenas aventuras comerciais esporádicas. O nascente luxo da nobreza
depende dos produtos trazidos pelos navegadores. E, os navegadores e
toda uma rede de profissionais dependem da frivolidade dos nobres.
Em 1471, o artista Nuno Gonçalves pintou seis painéis.
Juntos, eles resumem os pilares sociais deste pequeno país que se lançou
por mares nunca navegados. Segundo o historiador português Jaime Cortesão,
o trabalho de Nuno é a melhor síntese dos tempos das navegações e de
seus recorrentes personagens. Há os pescadores, os clérigos, o infante
dom Henrique, os nobres, o rei, os soldados, os banqueiros e os artesãos.
Sem cada um deles, a frota de Cabral não passaria de um sonho.
* Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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| Os painéis de Nuno Gonçalves: à esquerda,
os monges de batinas brancas; em seguida, marujos e pescadores;
nos dois painéis centrais, o rei Afonso V (ajoelhado, no da esquerda)
e os nobres; à direita, os guerreiros; e os banqueiros, médicos
e artesãos judeus. A figura diante da qual o rei e os nobres se
ajoelham, repetida nos painéis centrais, é o padroeiro de Lisboa,
São Vicente |
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