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O MUNDO NA
ÉPOCA
Os piratas da perna-de-pau
Onde há navegação, há pirataria. É assim desde a
Antigüidade e, nestes tempos de viagens por rotas recém-descobertas,
os malfeitores multiplicam-se tanto quanto as notícias do além-mar.
Tão logo os portugueses retornem do novo continente, piratas estarão
no meio do caminho, com seus grandes veleiros de dois ou três mastros,
sempre à espera da presa: embarcações carregadas de moedas de ouro e
especiarias.
Quando Cabral deixa Lisboa rumo ao oceano Atlântico,
os ladrões do mar, como são conhecidos, agem principalmente na costa
do Mediterrâneo. Suas bases estão estrategicamente localizadas com vistas
à pilhagem dos navios mercantes que utilizam o estreito de Gilbratar.
Encontram-se por ali piratas barbarescos e corsários. Qual a diferença
entre eles? Embora na prática ambos atuem da mesma maneira, são distintos
para efeitos legais.
Piratas são apátridas, saqueiam em benefício próprio
e, quando capturados, acabam submetidos a duras penas — na maioria das
vezes, enforcados no mastro principal da própria embarcação. No final
do século XVI, também serão chamados de bucaneiros, denominação de origem
regional bastante divulgada no Caribe americano. No século seguinte,
a partir de 1630, os bucaneiros se estabelecerão em Tortuga, perto da
costa norte do que virá a ser o Haiti, base ideal para atacar espanhóis.
A região entrará para a história da pirataria pelas
lendas de tesouros escondidos e por abrigar malfeitores como o britânico
Henry Morgan, nomeado governador da Jamaica, que passa a viver como
rico e respeitado fazendeiro (caso raro na pirataria) até morrer em
agosto de 1688. Do ponto de vista legal, porém, Morgan não é bucaneiro,
e sim corsário. Esses, ao contrário dos primeiros, têm licença de um
governante para atacar e apreender embarcações de nações inimigas. A
legitimidade é garantida pela Carta de Corso, documento assinado pelo
soberano do estado nacional. Ou seja, saqueiam em nome do rei.
O capitão corsário deve manter diário de bordo e
entregar embarcação e mercadorias confiscadas ao Tribunal da Marinha
de seu país. O governante pega a parte da coroa e o restante é dividido
entre a tripulação. Na época em que Cabral navega em direção às Índias,
muitos corsários agem em Argel, Túnis, Salé e outros pontos do norte
da África, portando licenças concedidas por governantes muçulmanos que
autorizam-nos a atacar barcos cristãos.
Ladrões do mar estão por toda parte. O mar Egeu guarda
um sem-número de piratas produzidos pela ocupação turca nos Bálcãs,
e só agora Veneza começa a dominá-los. As rotas do Atlântico, eixo do
comércio marítimo graças aos portugueses, estão cheias de corsários
árabes a serviço dos sultões da Turquia e do Marrocos. Em pouco tempo
a principal cobiça passará a ser pelos galeões espanhóis abarrotados
de ouro e prata das colônias americanas. É quando franceses, holandeses
e ingleses lançam seus corsários ao mar, em resposta à intenção espanhola
de manter o monopólio sobre o novo continente.
A atividade é rentável, mas aponta para destino incerto.
Piratas morrem cedo, ainda jovens. São farristas, gastam os recursos
apreendidos com bebida, festas e mulheres. Promovem orgias em terra
e não se importam em compartilhá-las com os companheiros. Vestem-se
como outros marinheiros, com jaquetas azuis, calça comprida de lona
ou de culote largo e, com freqüência, colete vermelho e lenço no pescoço.
Amarrada em volta da cabeça, a echarpe serve para
evitar queimaduras. Afinal, passam dia-a-dia no mar. Carregam várias
pistolas em bandoleiras presas aos ombros. É uma precaução sensata:
com a umidade marítima, é comum a arma falhar. Pela vida que levam,
muitos trazem ferimentos e membros decepados, inspiração para os personagens
fictícios com perna de pau e tampão no olho que vão povoar livros e
filmes alguns séculos depois.
Os contratos das tripulações de piratas — todos têm
regras, por escrito, de conduta a bordo — chegam a estabelecer indenizações
por ferimentos. A perda do braço direito dá direito a 600 ‘‘peças de
ouro’’; do esquerdo, 500; e de olho ou dedo, 100 ‘‘peças’’. Mulheres
são vetadas nos barcos e trapaças entre eles trazem retaliações. Podem
até mesmo ser abandonados em ilhas, dependendo do estatuto em vigor.
Trabalham muito no inte rior dos navios, onde as tarefas são divididas.
Alguns vão ter, tempos depois, escravos a bordo, roubados dos mercadores
e traficantes.
As bandeiras vermelhas e negras, adornadas com caveiras,
corações sangrando, ampulhetas, lanças, cutelos e esqueletos, são chamadas
de Jolly Roger e hasteadas sempre que o inimigo está à frente. Somente
em 1730 é que o pano preto com caveira e ossos cruzados vai depor os
outros símbolos e ser adotado por piratas espanhóis, ingleses e franceses
nas Índias ocidentais. A pirataria será intensa até os séculos XVII
e XVIII e os corsários somente sairão de cena quando começarem a atrapalhar
as relações comerciais e diplomáticas entre os países que os empregam.
* Alethea Muniz, da equipe do Correio.
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