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BRASIL 500 ANOS: O TRIGÉSIMO SEXTO DIA DA VIAGEM

Em nome da honra

Os marujos assistem à missa dominical e ouvem a pregação contra as farras, das quais participa até Sancho de Tovar, o sangüíneo espanhol que vingou com sangue a morte do pai

A pintura mostra um jovem na cerimônia em que lhe é dada a honra de virar cavaleiro: tudo para preservar o nome da família
Obra de Luca Giordano (1634-1705) retrata a luta de Perseu: vingança como a de Sancho de Tovar

Domingo, 12 de abril de 1500. Pela manhã, os marujos assistiram à missa dominical no convés da nau capitânia. Os padres insistiram nas pregações contra o demônio personificado nas jogatinas e nas bebedeiras tão comuns nestes barcos. A última farra aconteceu há trêsdias, na quinta-feira, quando a frota ultrapassou a linha do equador. Há um ritual antigo dos navegadores para comemorar a chegada à linha: os marinheiros de primeira viagem são amarrados numa corda e depois mergulhados três vezes no mar.

  Só existe uma maneira de evitar este traumático batismo salgado: se o condenado oferece presentes, comida ou dinheiro, a todos os colegas. Passados trinta e três dias de viagem, raros eram os que ainda tinham alguma relíquia guardada, nenhum marujo iniciante escapou do banho forçado no Atlântico. Depois, todos beberam canecas de vinho em porções mais generosas do que as permitidas em dias normais. Mesmo os homens mais bravos e carrancudos, como o Sancho de Tovar, participaram da brincadeira.

  Sancho não tem apenas fama de bravo. É bravo. Nasceu na Espanha e fugiu para Portugal depois de assassinar um juiz. Matou em nome da honra. Em 1479, o juiz confiscara todos os bens da família Tovar e ainda mandara degolar Martins Fernandes, o pai de Sancho. O filho se vingou, apunhalou o juiz e, em 1481, refugiou-se em Portugal. Mais tarde ficou amigo do rei dom Manoel e conseguiu ser nomeado sub-comandante da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Agora, estão sob suas ordens os 160 homens da nau sota-capitânia, de nome El Rei. (Nos próximos dias, Sancho se encantará com os tupiniquins. No dia 24 de abril, levará dois índios para dormir na nau El Rei, lhes dará vinho e não compreenderá a cara feia e a cuspida dos nativos. Quando a frota chegar às Índias, Sancho assumirá o comando da esquadra e protegerá Cabral dos ataques dos indianos)

  Não há motivos para dom Manoel desconfiar da lealdade deste espanhol de linhagem nobre. Seu pai morreu por ser fiel aos portugueses. No meio do século XV, o rei de Portugal, Afonso V, capitalizou conquistas valiosas no continente africano. Derrotou os mouros em Tanger, Arzila e Alcácer Ceguer, todas cidades do norte da África.

As vitórias agradaram a nobreza de toda a Península Ibérica. Em Castela, nobres endinheirados como Martins Fernandes, pai de Sancho, se mobilizaram para pedir a dom Afonso V que assumisse o trono dos castelhanos. O rei gostou da idéia, mas, em 1469, foi traído pelo casamento de Isabel, rainha de Castela, com Fernando, rei de Aragão. Entraram para a história como os reis católicos.

  A união unificou a Espanha, mas matou Martins Fernandes. Na corte, o pai de Sancho continuou bradando que o melhor caminho para a prosperidade dos ibéricos era a união de Portugal e Castela. Aos olhos dos reis católicos, Martins era o exemplo de traidor. Puniram-lhe com a morte e com a pobreza da família. O filho Sancho se vingou. Em nome da honra.

Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.






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