logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

Um bem tão importante quanto à vida

 

Obra de Rembrandt, pintada entre 1661 e 1662, hoje no acervo do museu de Estocolmo, na Suécia: diferenças entre povo e elite

  Nestes tempos de mares nunca dantes navegados, de piratas e corsários, de guerras entre mouros e cristãos, de perseguições de heréticos por inquisidores, nestes tempos paradoxais em que o homem teme o mundo d’além mar e no entanto se supera num esforço inumano para descobri-lo, nestes tempos marcados pela libertação criativa e, também, pela paralisia moralista, nestes tempos assim a honra — a honra pessoal, a honra familiar, a honra do ofício, a honra do povo, a honra da elite — ocupa um lugar central. São tempos em que se lava a honra, como Sancho de Tovar fez na sua Espanha, em que se dá a palavra de honra, se defende, até com o sangue, o ponto de honra, em que o homem pode se mover por questões de honra.

  Os homens são os guardiães da honra, guardiães da glória da família e da ordem doméstica. E a principal ameaça de desonra está personificada na mulher. Elas são permanentemente vigiadas para que não sejam seduzidas e desonrem a família. Quando saem à rua, um cortejo familiar as acompanha para evitar a desgraça infinda do adultério, a mais completa violação da honra de um homem. E a injúria mais comum é disseminar dúvidas sobre a virtude de uma mulher, pois afeta não apenas a ela, mas também a seu marido. (Em caso de adultério, procurava-se manter a desonra em segredo. Só quando o marido, por qualquer motivo, queria livrar-se da parceira, aí sim dava toda a publicidade ao adultério, pois assim ganhava o direito de expulsá-la de casa, castigá-la e, até, de queimá-la viva.)

  Nos tempos de Cabral, a honra é um bem comparável à vida. Ao contrário da perda de um patrimônio qualquer, uma casa, uma carroça, um terreno, a honra não pode ser reposta. Entre o povo, os pequenos, o chamado popolo grasso, é um sentimento muito forte, pois a desonra tem conseqüências até no plano econômico: o comerciante perde sua clientela, o aprendiz não consegue emprego. Tanto que, em depoimentos dessa época arquivados na polícia de Paris, é comum alguém defender-se das injúrias e difamações porque pretende preservar a ‘‘honra de que seu pão depende’’.

  O sentimento de honra fica ainda mais agudo a medida que as cidades vão se formando e ficando cada vez mais populosas. O convívio urbano, que coloca vizinhos face a face, imprime uma importância crescente à palavra — donde vêm os boatos, as injúrias, as maledicências, a ofensa à honra. As autoridades serão acionadas por gente simples do povo que quer se queixar de alguma acusação. Até famílias inteiras recorrem às autoridades. Seja para repor a verdade machucada por uma calúnia, seja para procurar punição para um membro da família cujo comportamento desonra a todos — se o filho é devasso, se a esposa é libertina, se o marido é bêbado.

  O empenho em preservar a honra é mais comum entre a gente simples por uma razão sutilmente política. As autoridades gostam de receber as denúncias porque, neste caso, enquanto a família sente sua dignidade resgatada, preserva-se também a ordem pública. A honra, assim, funciona como instrumento de coesão social para manter a ordem como está. No caso da elite, é um pouco diferente, pois a elite não ameaça a ordem, estabelece-a tal como quer. E, nas famílias ricas, são as cerimônias públicas — casamentos, enterros, formaturas — o grande momento de exibição de honra. Nessas ocasiões, o popolo grasso está presente e, diante dele, não se pode perder o prestígio. É obrigatório servir banquetes expecionalmente fartos em bebida e comida. É quando o popolo grasso gratuitamente se esbalda na farra — e faz a elite de boba.

André Petry, da equipe do Correio

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